Relato de parto pelo pai 2/3

Foi num grupo virtual de gestantes que percebi a necessidade do pai também externalizar suas experiências de parto, infelizmente, a maioria das mulheres não tem o apoio necessário de seus companheiros para que sigam firmes nessa jornada que é a busca por um parto respeitoso. Eu passei pelas duas experiências, sem e com apoio  da mesma pessoa (olha que incrível). E foi assim que pedi para meu parceiro que escrevesse sua experiência de parto, ele prontamente atendeu e eis que segue uma trilogia de nossos dois partos. Mas vamos começar pelo fim, com o relato do parto da Celina.

 

Gustavo pai da Laura, 5 anos e da Celina de 40 dias.

———–

Continuar a ler

Anúncios

A chegada da Celina // Relato de parto domiciliar parte II

Segundo filho vem pra provar que a gente não sabe nada mesmo, como eu disse, não me imaginava chegando nas 40 semanas, muito menos que ficaria dias em pródromos. Bom, mencionei toda minha alimentação na primeira parte do relato, não foi a toa, acontece que quando cheguei em casa, depois da comilança, tive diarreia, o parto da Laura tinha começado assim também.  Mas, estamos falando de segundo filho… e bom, eles pregam peças na gente, então, nos pródromos eu também tive diarreia, ou seja, nada de novo no front.

Deitei do “lado da cama do marido” que fica mais próximo do banheiro, dormi e acordei mais ou menos a 1h da manhã com contração, tentei ignorar, diarreia de novo, sentei na privada e fiquei um tempo, as contrações vinham. Pedi pro Gustavo começar a marcar, entrei no chuveiro.Exibindo IMG_5812.PNG

Eu conseguia dizer “mais uma” e “parou” a cada contração, não sei quanto tempo fiquei lá, só sei que as contrações não paravam, eu estava com calor e cansada de ficar de pé. Sai e deitei ainda meio molhada na cama, lembro de falar pro Gustavo “dói muito, não me deixa desistir”. Eu queria descansar, meu maior medo era ser vencida pelo cansaço. Aliás, passei as últimas semanas de gravidez toda descansando, tanto que não aguentava mais descansar… rs. E deve ser por isso que a Celina quis vir depois que a mamãe ficasse a tarde toda batendo perna, vai entender.
Pois bem, eu queria descansar e deitei novamente, ainda sentindo contrações,  pedi pro Gustavo continuar marcando,   depois resolvi ignorar e tentei cochilar. Até que voltei pra privada, já não me lembro se era necessidade fisiológica, acontece que era gostoso ficar sentada lá… eu apoiava minha cabeça na pia e conseguia relaxar. Lembro de vir uma contração bem dolorida e eu pedi pro Gustavo ligar pra Gi. Ele, cauteloso por causa da noite passada, perguntou se não era melhor eu ir pro chuveiro. Fui. No chuveiro,  chorei porque não aguentava mais a expectativa, chorei pela dor, chorei de medo de não conseguir, na verdade foi mais um choro de “não acredito que vou ficar mais uma noite nessa”.

Gustavo perguntou se eu conseguia continuar marcando – ele estava realmente com medo de ser alarme falso de novo… rs. Eu só balancei a cabeça dizendo que não. Ele ainda não tinha ligado pra Gi, lembro dele dizendo “qual número é? tem dois aqui” no meio de uma contração e eu ficando “pê” da vida com ele… “bem, é pra ligar mesmo?” aí vocês sabem como é a gente com dor, né? Mandei logo “eu já falei pra ligar caramba”. Ligou. Eu sai do chuveiro, – não mencionei, mas nosso box é bem apertadinho e ficar ali com a água quente nas costas parecia uma sauna -, eu tava com calor, queria sair, mas a água aliviava, então eu desligava o chuveiro e abria a porta do box quando parava a contração. Fiz algumas vezes isso até que quis sair. Fui pro outro banheiro que tem o box um pouco maior, foi aí que comecei a vocalizar instintivamente, a contração vinha e eu vocalizava “AAAAAAA”, com as pernas entreabertas, as mãos apoiadas na parede e a cabeça nas mãos…

Já passava das 3h da manhã, Gustavo disse que a Gisele estava a caminho e eu pedi pra ele ligar pra Dri (parteira), e ele já tinha ligado (ganhou pontos nessa hora… rs). Enquanto elas não vinham eu ficava naquela de ligar o chuveiro na contração, desligar quando parava. Fiquei um tempo nessa, sai do chuveiro de novo e dessa vez intercalava a privada com apoio no Gustavo.  – Pausa pra elogiar o marido…. Ah, o Gustavo, ele foi maravilhoso, um verdadeiro “doulo”, cuidou da casa, me dava água, me dava apoio físico, me fazia carinho, nada como ser amada quando se está com dor, as coisas se tornam mais fáceis.- Voltando pro relato.

Não me lembro bem a ordem das coisas, mas entre ir pro chuveiro e ficar na privada também quis ir pra cama, fiz um apoio com um monte de travesseiro e fiquei umas duas contrações lá… Voltei pro chuveiro.

Bom, eu ainda estava encanada de ficar muito cansada, falei pro Gustavo que ia deitar, as dores estavam fortes, mas suportáveis. Deitei e em seguidas ouvimos barulho de rodinhas no hall (deixamos uma lista na portaria para liberar a equipe sem interfonar), enquanto Gustavo foi abrir a porta, uma contração, me acocorei na beirada da cama e vocalizei, a Gi chegou, segurou minha mão, a contração passou, nos abraçamos. A Dri chegou junto com a Gisele, e assim que passou a contração ela apareceu com o sonar para auscultar a Celina, colocou lá em baixo, quase no púbis e eu disse “caramba, ela já tá aí?!” a Dri disse que sim, mas que tentaria auscultar em outro lugar porque as vezes dá pra ouvir mesmo quando o bebê não está posicionado onde está o sonar. Para a minha surpresa ela estava bem baixinha mesmo! Uma contração… pera, a Gi estava atrás de mim, joguei o peso do meu corpo nela… passou. E a Dri nos disse “é isso aí, ela tá chegando, pode colocar a playlist que ela nasce hoje”.

Gustavo foi mais do que rápido colocar as músicas para tocar, a Gi perguntou se tínhamos avisado a Kelly (fotógrafa), disse que não e ela pediu pro Gustavo ligar.  Eu sentei na privada, a Gi me trouxe água, conversamos alguma coisa e eu falei que ia pro chuveiro, ela comentou que achava que seria bom se eu fosse. Fui. Fiquei um pouco de pé, molhei o cabelo, olhei pro vidro de condicionador e resolvi que tinha que passar pro cabelo não ficar arrepiado… Ainda pensei “tenho que ser rápida, tem que ser antes de vir a contração”.

Ouvi um barulho parecendo aspirador, perguntei pro Gustavo o que era e ele me disse que era a Dri enchendo a piscina. Ainda no chuveiro pedi a bola, não tinha bola. Gustavo me trouxe a banqueta da cozinha, tentei ficar nela e  percebi que estava tapando o ralo (e se continuasse lá alagaria o banheiro), pedi pro Gustavo tirar de lá e me trazer a outra que tem as pernas diferentes. Fiquei um pouco lá, apareceu uma bola, sentei e achei horrível.

Daqui a pouco aparece a Dri e me pergunta se pode fazer o toque, eu permiti (tínhamos combinado que faria se fosse necessário, e no meu caso precisávamos avisar a pediatra.) O tempo todo que eu estive no chuveiro a Gi tentava me dar a mão, eu é que não queria pegar, tentou me fazer comer um chocolate, não quis. Lembro do Gustavo olhando por cima do box, perguntou se eu estava gostando das músicas… Eu disse que não estava ouvindo. A Dri apareceu na porta e perguntei se faltava muito e ela disse: “você quer saber qt deu o toque?” respondi que queria saber se faltava muito e ela respondeu “não, não falta. Essa informação é suficiente?” Disse que sim.

Quis sair do chuveiro, pedi pro Gustavo pegar uma toalha limpa  e ele pegou uma da Laura, tomou bronca… rs. Sentei na privada, a Dri veio  auscultar a Celina.  Gustavo tava acocorado na minha frente, me dava a mão quando vinha uma contração, mas teve uma hora que do nada eu falei pra ele sair (?). Depois pedi pra ele me trazer o puff da Laura, peguei uma toalha de rosto no móvel do banheiro,  fomos pra sala, arrumei o puff de frente pro sofá (porque eu não sei), coloquei a toalha em cima e sentei. Aaaaah, que delicia. (Parenteses pra falar do puff, é maravilhoso, acho que deveria estar na lista de itens pro parto. Sentei e parece que encaixou direitinho, consegui relaxar, foi mágico). Quando estive lá que consegui curtir minha playlist, Gustavo sentou de um lado, a Gi de outro. Apoiei a cabeça no ombro dele e dei a mão pra Gi. Fechava os olhos e cochilava.

Alguém bateu na porta, eu seguia de olhos fechados, achei que fosse a Camila, a outra parteira. Era a Kelly, veio uma contração, eu apertei a mão da Gi, abri os olhos e vi a Kelly sentada na poltrona da minha frente. Falei um “oi” e segui na minha vibe de relaxamento.

Eu estava muito consciente de tudo,  tanto que achei que ia demorar super, eu estava esperando entrar na partolândia, falar umas besteiras e tal… não rolou. Eu sentia bastante calor, a Gi colocou um paninho na minha testa, ainda no puff conversei algumas coisas, falei que era muito bom estar ali, comentei que estava amanhacendo e agora poderia fazer barulho… rs. Perguntei pra Gi pq estava demorando entre uma contração e  outra e ela me respondeu: “lembra do gráfico de parto? Você já passou do pico, agora vai ser assim”... Nem dava pra acreditar, era só isso? Eu já tinha dilatado tudo? Era só esperar o expulsivo? Que sonho! Doeu, claro que doeu, mas foi menos do que eu lembrava e esperava, foi incrível, no puff eu estava num estado de relaxamento tão profundo que poderia passar dias ali sendo amada…  rs

Numa contração lembro da mão da Kelly na minha perna, e são detalhes como este que faz a gente lembrar que ter apoio pode ser apenas um gesto, um toque que dê aquele gás pra continuar… Meia luz, música boa, carinho, começou tocar Alceu Valença, Anunciação e a Gi disse: “não é que vem numa manhã de domingo mesmo?”. Tudo estava perfeito, a Dri veio me lembrar que a piscina estava cheia, “pra hr que eu quisesse” eu, de novo, perguntei se ela tava chegando e a Gi disse que eu era a melhor pessoa pra dizer. Eu só queria ir pra piscina como “último recurso”, coloquei no plano de parto que seria perfeito se ela nascesse na água. E como diz a música do Alceu “eu já escuto teus sinais”, foi quando percebi que tava muito perto e decidi ir pra água. Entrei, senti falta de um apoio, olhei pro Gustavo e pedi pra ele entrar, ele bateu as mãos nos bolsos (precavido, lembram?) e entrou.

 

vou ter que continuar em outro post, vcs me desculpem, ou é isso, ou não publico nunca… rs

#PartoComRespeito: Atenção da mídia para a violência obstétrica

 

Nesta semana, a Revista Época lançou a campanha #PartoComRespeito para levar a discussão sobre os direitos das grávidas e de seus familiares. Foram entrevistadas 4 mulheres que passaram por alguma situação de violência obstétrica, a atriz Grazi Massafera e jornalista Astrid Fontenelle foram convidadas para posar para a campanha.

Este movimento é um grande ganho para os ativistas da humanização do parto, o fato que chamou atenção para a causa foram as pesquisas realizadas pela Fio Cruz (Nascer no Brasil) e pela Fundação Perseu Abramo nas quais apontaram que 25% das mulheres sofrem algum tipo de violência na hora de dar à luz.

Uma dessas mulheres, a Joyce Guerra, foi personagem do livro: Cesáreas, muito além da cicatriz. Escrito por mim em 2013 para meu projeto experimental da faculdade de jornalismo. Um colega de sala, soube da história, depois do caso dela sair em rede nacional e me procurou para contar como foi a experiência de escrever um livro que trata – dentre outras coisas – a violência obstétrica. A reportagem foi feita pelo jornalista Henrique Brazão e foi ao ar pela TV Sul.

0

Parto normal depois de cesárea(s) é possível, entenda o VBAC

vbac_jornaldemae

Uma frequente indicação para cirurgias cesarianas é a de mães que já fizeram uma (ou mais) cesárea(s), isso porque os obstetras tem o receio que se rompa a cicatriz uterina, muito embora, as revisões existentes apontam que o parto normal bem sucedido ocorre de 60% a 80% dos casos. No entanto, se este parto for induzido a taxa cai para pouco mais de 50%.

O VBAC: vaginal birth after cesarian, no português: parto vaginal após cesárea. Recebe esse nome quando a mulher tem um ou mais partos normais após passar por uma ou mais cesarianas.

Mas é preciso ficar atendo as cesáreas por repetição, isso porque, independente da via de nascimento, as múltiplas cirurgias aumentam as complexidades maternas, cerca de 9% das mulheres podem apresentar complicações importantes; como lesão de bexiga e intestinos. Depois de duas cesarianas o risco de acretismo é de 0,57%,  ou seja, semelhante ao risco de ruptura uterina após uma cesariana.

Em síntese, parto normal depois de cesárea é mais seguro que outra cirurgia.

Fonte: Indicações reais cesarianas

 

Entrevista TV Sol e o que as evidências dizem

Há uns dias anunciei que daria entrevista para uma TV local sobre a normativa n.º 368 do Ministério da Saúde. A emissora, TV Sol Comunidade, me enviou e eu compartilho com vocês.

Na reportagem foram entrevistados eu, jornalista e ativista do parto humanizado e um médico ginecologista e obstetra, bem conhecido na cidade de Indaiatuba.  No entanto, a fala do obstetra aponta alguns mitos que já foram revelados pela ciência como desnecessários; caso do toque vaginal. Ou necessário, caso do atendimento feito pelas enfermeiras obstetras.

Como jornalista e ativista, minha obrigação é esclarecer esses pontos para vocês, mas antes gostariam que assistissem ao vídeo.

 

 

Alguns pontos:

1) Infraestrutura:  Desde de 2011 existe a Rede Cegonha, que visa melhorar o atendimento para as gestantes desde o pré natal ao pós parto. A medida sancionada pela presidenta Dilma Rousseff beneficia os hospitais com verba para melhoria da infraestrutura e capacitação dos profissionais. Apesar disso, o ex-ministro da Saúde, Alexandre Padilha afirma que não há interesse das prefeituras em filiarem-se ao projeto.
No entanto, é provado que é eficiente nas maternidades que aderiram, como pode ser vistos nesses links:

Santa Catarina

Hospitais de referência em parto normal

Sofia Feldman,um exemplo a ser seguido

2) Exames de toque e Monitoramento: Apesar de haver  evidências fracas, o toque a cada 4 horas é o recomendado pela OMS:

 Exame de toque vaginal em intervalos de quatro horas é a recomendação para avaliação de rotina e identificação de demoras na fase ativa do trabalho de parto (Recomendação fraca, evidência de muito baixa qualidade)

• O intervalo de tempo especificado reflete o período entre as linhas de alerta e de ação no partograma (ver Recomendação No 1) e, além disso, reforça a necessidade de dar tempo para a confirmação do diagnóstico de demora no trabalho de parto antes de instituir qualquer intervenção.
• O Grupo de Desenvolvimento de Diretrizes (GDG) reconheceu que o exame vaginal em intervalos mais frequentes pode ser melhor indicativa da condição da mãe e do bebê. Em todo caso, devem ser priorizados os desejos e preferências da mulher assim como a minimização do número total de exames vaginais.
• Exame retal pode ser mais desconfortável para as mulheres e não deve ser realizado. “

Fonte: Manual da Organização Mundial da Saúde

2.1) Monitoramento, aqui estão trechos retirados do blog da Obstetra PhD, Drª Melania Amorim, que por sua vez são extraídos das revisões bibliográficas existentes na Biblioteca Cochrane. Atualmente utilizam-se da cardiotocografia (cardiotoco) e a ausculta fetal (máquina de Ping) para acompanhamento fetal intraparto.  O que as evidências dizem.

Cardiotoco:

  •  A mais recente revisão sistemática da Biblioteca Cochrane (2013) inclui 13 ensaios clínicos randomizados e mais de 37.000 pacientes e conclui que o uso da cardiotocografia intraparto não reduz as taxas de mortalidade perinatal, baixos escores de Apgar, admissão em UTI neonatal, acidose no sangue do cordão, encefalopatia hipóxico-isquêmica e paralisia fetal, aumentando o risco de cesariana e parto instrumental (2). O exame resulta em percentual elevado de falsos-positivos, com o nascimento de conceptos saudáveis apesar de um traçado anormal, e não previne desfechos desfavoráveis.

  • Ao contrário do que continua sendo utilizado em algumas áreas clínicas, nós NÃO ENCONTRAMOS QUALQUER EVIDÊNCIA OU BENEFÍCIO PARA O USO DE CARDIOTOCOGRAFIA PARA MULHERES DE BAIXO RISCO NA ADMISSÃO EM TRABALHO DE PARTO. Mais ainda, a CTG de admissão aumenta a taxa de cesariana em cerca de 20%, sendo insuficiente o poder dos estudos para detectar diferenças importantes na mortalidade perinatal. Mulheres devem ser informadas que a CTG de admissão se associa com aumento da taxa de cesariana sem evidência de benefício.

Ausculta Fetal:

  • A recomendação corrente da Organização Mundial da Saúde (OMS) é que se realize ausculta fetal intermitente durante o trabalho de parto, a cada 30 minutos nas gestantes de baixo risco e a cada 15 minutos nas gestantes de alto risco. Durante o período expulsivo, a ausculta deve ser realizada a cada 15 minutos nas gestantes de baixo risco e a cada 5 minutos nas gestantes de alto risco (5,6). Com essa recomendação, as evidências demonstram que há redução das taxas de cesariana e de parto instrumental sem piora dos desfechos fetais e neonatais. É o método de escolha para monitorização fetal em gestações de baixo risco. 

Fonte, como já citado é o blog da Drª Melania Amorim, e para quem quiser saber mais, ela apresenta os links de cada evidência aqui apresentada.

3) Enfermeiras obstetras ou obstetrizes: No Brasil, a assistência ao parto por enfermeiros-obstetras ou obstetrizes é prevista na Lei 7.498, de 25 de junho de 1986, estabelecendo que esses profissionais podem prestar assistência à parturiente e ao parto normal, bem como identificar distocias e tomar providências até a chegada do médico. Essa Lei foi regulamentada pelo Decreto 94.406 de 4 de junho de 1987. Por sua vez, o Conselho Federal de Enfermagem, através de sua Resolução 223, de 3 de dezembro de 1999, estabelece que:

Art. 1º – A realização do Parto Normal sem Distocia é da competência de Enfermeiros, e dos portadores de Diploma, Certificado de Obstetriz ou Enfermeiro Obstetra, bem como Especialistas em Enfermagem Obstétrica e na Saúde da Mulher;

Art. 2º – Compete ainda aos profissionais referidos no artigo anterior:

  1. a) assistência de Enfermagem à gestante, parturiente e puérpera;
  2. b) acompanhamento da evolução e do trabalho de parto;
  3. c) execução e assistência obstétrica em situação de emergência.

Mais que isso, o atendimento obstétrico feito por obstetrizes apresentam inúmeros benefícios, como a diminuição hospitalização antenatal, menor risco de analgesia regional, de episiotomia e parto instrumental, maior chance de parto vaginal espontâneo, de sensação de controle durante o nascimento. Como aponta a revisão bibliográfica

Fonte: Blog da Drª Melania Amorim

4) Dilatação de maneira adequada: Dilatação adequada é quando a mulher atinge seus 10cm. Embora a literatura indique a média de 1cm por hora, na prática,  não tem como prever em quanto tempo ela alcançará a dilatação total. Alguns são muito rápidos (poucas horas) e outra muito demorados (alguns dias), visto que influências externas podem atrapalhar esse processo, no sentido de demorar ainda mais.

A dilatação do colo do útero é um processo passivo que ocorre quando as contrações encurtam as fibras musculares do útero, empurrando o bebê para baixo e puxando o colo para cima. Essas contrações, uma após a outra, vão puxando o colo de tal forma contra a cabeça do bebê, que é como se ele estivesse vestindo uma blusa de gola muito apertada. Cada vez que o útero contrai no trabalho de parto, a gola veste mais um pedaço de milímetro de sua cabecinha[…] Para aguardar que todas as mulheres dilatem, precisamos ter disponíveis profissionais bem dispostos, sem pressa, com repertório, incluindo parteiras, doulas, obstetras, anestesistas e pediatras. É preciso haver recursos completos para alívio da dor como ambiente agradável, bola, banqueta, banheira, chuveiro, massagem, alimentos, conforto para os acompanhantes, etc. E por fim, é preciso ter disponível analgesia de boa qualidade para as poucas mulheres que necessitam. Por Ana Cristina Duarte, Obstetriz. Leia o Texto na íntegra no link

Sobre o inicio do trabalho de parto e os pródomos:

O trabalho de parto é caracterizado por contrações espontâneas de 3 em 3 minutos (aproximadamente), que duram de 1 minuto a 90 segundos. Em outras palavras, quando a mulher fica 12 horas “em trabalho de parto”, com contrações a cada 10 minutos, isso não era trabalho de parto. Isso eram os pródromos, o princípio, a fase de instalação do processo do parto.

5) Dados de Partos: A matéria cita um hospital de Indaiatuba (interior de SP), cujo os números de partos ao ano são; 720 pelo SUS contra 117 do plano de saúde.

A realidade não é diferente no resto do país, embora seja possível conseguir dados das maternidades no Sinasc, muitas pessoas ainda desconhecem essa informação, embora seja alarmante, os médicos (dos planos em sua maioria) não informam suas taxas de cesáreas. Por isso, é muito importante a normativa 368, porque dessa forma, a mulher escolhe o médico, sabe a sua taxa de cesariana e continua o pré-natal e parto com se quiser, pois não serão mais enganadas com falsas indicações de cesárea.

 

 6) Despreparo médico: Quanto à isso devo concordar com o Dr. Tulio, pois existe sim um despreparo da classe. Mas a questão é bem mais ampla do que se imagina, uma vez que todo o nosso modelo biomédico (que é centrado na figura do médico) precisa ser melhorado. Em entrevista ao meu livro (Cesáreas, muito além da cicatriz) a fundadora do curso de obstetrícia da USP,  Drª Dulce Gualda, alega que para se formarem no curso de médica da mesma universidade, os residentes precisam atender 8 partos normais e são considerados aptos. De acordo com ela, mesmo se atendessem 100 partos não seria o bastante, já que trata-se de um evento completamente fisiológico e não dá para saber o que vai acontecer 100% do tempo. O contrário da cesárea, que ainda segundo Dulce, quando se faz 10 você aprendeu e raramente algo diferente acontece.

7) Fórceps: O fórceps obstétrico é um instrumento destinado a apreender a cabeça fetal e extraí-la através do canal do parto.

As indicações do parto a fórceps são atuais, devido a circunstâncias especificas em que se mostra superior à cesárea (parada de progressão e sofrimento fetal no período expulsivo), justificando a grande frequência com que ainda é praticado.
O parto a fórceps implica em conjunto de condições adequadas: o ambiente deve proporcionar a possibilidade da realização da cesárea, o obstetra deve ter experiência com o tipo de cirurgia e o tipo de instrumento, e a falha do fórceps deve ser considerada após três trações sem progresso, quando está indicada a cesárea.
O uso sequenciado do parto vaginal operatório (vácuo seguido de fórceps) é contraindicado.
8) “Parto indicado pelo médico”: Definitivamente, médico escolher via de nascimento fere o direito de decisão da mulher e mãe. O dever do médico é informar a gestante sobre os riscos e/ou mitos dos tipos de partos possíveis. Lembrando, que toda gestação de baixo risco, tem como primeira indicação, parto por via vaginal. Além da via do nascimento, o local também é de escolha da mulher.
A discussão sobre o local de parto deve se pautar, essencialmente, em dois níveis: respeito à autonomia e ao protagonismo feminino, uma vez que a escolha do local de parto é um direito reprodutivo básico; e reconhecimento e adequada interpretação das evidências comparando partos domiciliares planejados e partos hospitalares em gestantes de baixo risco. Não se compreende mais na atualidade o processo de tomada de decisão baseado exclusivamente nas concepções e na experiência do prestador de cuidado, uma vez que, por definição, Medicina Baseada em Evidências consiste na integração harmoniosa da experiência clínica individual com as melhores evidências científicas correntemente disponíveis e com as características e expectativas dos pacientes. Por Ricardo Hebert Jones
9) Indicações reais de cesariana:  Não poderia falar de escolha, protagonismo e informação sem mencionar quais as indicações para a cirurgia cesariana. Estas que foram listadas pela Drª Melania Amorim (mais uma vez a cito, pois é referência nacional de humanização de parto).

1) Prolapso de cordão – com dilatação não completa;

2) Descolamento prematuro da placenta com feto vivo – fora do período expulsivo;

3) Placenta prévia parcial ou total (total ou centro-parcial);

4) Apresentação córmica (situação transversa) – durante o trabalho de parto (antes pode ser tentada a versão);

5) Ruptura de vasa praevia;

6) Herpes genital com lesão ativa no momento em que se inicia o trabalho de parto (em algumas diretrizes, somente se for a primoinfecção herpética).

A lista completa com os mitos e verdades sobre a cesariana você encontra aqui.
10) Riscos da Cesárea: Cesariana anteparto com indicações como qualquer tipo de cesariana se associaram com risco aumentado de desfechos perinatais graves: morte perinatal, morte fetal, morte neonatal precoce, hospitalização em UTI neonatal por mais de sete dias e complicações perinatais graves.
A conclusão do estudo da OMS é que cesarianas associam-se com um risco intrínseco de desfechos maternos graves e que somente deveriam ser realizadas quando um claro benefício é antecipado, compensando os custos maiores e os riscos adicionais associados com a cirurgia.

Para entender melhor clique aqui

Fonte: Blog da Drª Melania

 

11) Falta de informação: Imagino que depois de ler tudo isso ou você não acreditou em nada ou quer buscar meios de aprender mais. Se você fizer parte da segunda opção, começo dizendo para ler o blog da Drª Melania (o mais citado aqui), que frequente grupos de apoio ao parto humanizado, você encontra uma lista deles aqui. E que participe de grupos virtuais, no Facebook tem o: “Cesárea? Não Obrigada!” e “Parto Natural”.

 

12) Pesquisa sobre opção de parto: Essa fala foi minha durante a entrevista, a pesquisa citada é a Nascer no Brasil, realizada pela Fio Cruz.

 

13) Doulas: A profissão de doula auxilia e aumenta as chances de um parto humanizado. Dados da OMS (Organização Mundial de Saúde) revelam que o acompanhamento com este profissional traz inúmeros benefícios como: menor intervenções médicas, menor número de medicações e analgesias, redução no número de cesáreas e um trabalho de parto mais curto. Além disso, indica para a mulher o melhor momento de ir para o hospital, esta forma não ocupa leito por tempo maior que o necessário, o que por sua vez, alivia a questão da estrutura tão citada pelo Dr. na entrevista.

Para quem quiser saber mais sobre as doulas, escrevi uma matéria sobre aqui.

 

Normativa 368_jornaldemae

14) Normativa n.º 368: Você deve estar pensando o que tudo isso tem a ver com a normativa citada no inicio do texto que foi pauta da matéria, pois bem, a grosso modo, a regulamentação prevê o direito de informação da gestante no que se refere ao número de cesáreas do médico que ela escolheu para fazer o seu pré- natal, que por ventura pode ser o obstetra a acompanhar o parto.  Além disso, a gestante precisará ter o cartão de acompanhamento das consultas do pré-natal (no SUS isso é uma realidade) e o uso do partograma.

Isso tudo para uma tentativa na diminuição no número de cesáreas realizadas no nosso país (batemos o record mundial, com mais de 50% dos nascimentos por via cirúrgica). São esforços para tentar garantir o direito daquelas mulheres que desejam seu parto normal (vide que 70% tem esse desejo no inicio da gestação).

A normativa não pretende obrigar todas as mulheres a terem seus filhos por via vaginal, ela tenta resguardar o direito daquela que sempre quis ter um parto normal (e aqui seria lindo se fossem respeitosos e humanizados, mas isso é assunto para outro tópico) a não serem apenas estatísticas que deixaram seus desejos para traz por causa das  falácias.

 

 

O que você precisa saber para ter um parto humanizado

jornaldemae_partohumanizado

Como faço para ter um parto humanizado? Essa é a pergunta que mais ouço, pois entre meus amigos sou referência no assunto, eu tive minha filha de parto natural e desde então sou engajada nessa luta. Acontece que o parto transforma, a chegada da pessoa mais amada da sua vida pode e deve ser prazerosa. E é por isso que existe os movimentos de humanização, para uma tentativa de levar um parto respeitoso a todas.

Parto humanizado hoje, infelizmente, só é possível se a mulher tiver munida de informações, é muito comum os médicos desencorajarem as mães por muitos motivos, que vão desde circular de cordão e bebê que faz coco (Mecônio) na barriga* e foi pensando nisso que surgiram os grupos de apoio ao parto natural, são eles peça chave para o seu empoderamento.

Acompanhe os passos para se conseguir ter um parto humanizado no Brasil hoje:

1 – Informação: como disse acima, a mulher empoderada não tem medo de (quase) nada, encara as falácias sem remorso, troca de obstetra aos 45 do segundo super segura de si, tem coragem para dizer NÃO a um procedimento que ela sabe que é desnecessário (vide episiotomia). Mas onde eu consigo essas informações?

Existe uma “coisa” que se chama Evidências Científicas, ou seja, é a ciência comprovada por meio de estudos de casos, as autoridades máxima no assunto (Organização Mundial da Saúde, Ministério da Saúde) preconizam que a ciência médica trabalhe de acordo com as evidências existentes, mas não é bem assim que ocorre. E por isso ressalto a importância de se munir de informação! Mas não se desespere, vou deixar um link muito importante que irá clarear as coisas.

Blog da Dra Melania Amorim – Melania é médica PhD que trabalha de acordo com as Evidências Científicas atuais, atua no ISEA, Hospital de Campina Grande, na Paraíba.

Para os mais curiosos, a busca pode ser feita direto no site da Cochrane.

Outro local importantíssimo na busca por um parto humanizado são os grupos de apoio, seja ele presencial ou virtual, é lá que você encontrará as histórias reais, é como se fossem seu lugar de refúgio e é também um lugar perfeito para se escolher os profissionais que trabalham de  acordo com as evidências.  Os grupos virtuais mais conhecidos estão no Facebook, são eles:

– Cesárea? Não, obrigada!

– Parto Natural

Além deles, você pode contar com os grupos de apoio presenciais, alguns são gratuitos, outros pedem um valor simbólico, a lista com os locais você encontra no Site do Parto do Principio.

2 – Tenha uma doula, independe de qualquer coisa, a doula é fundamental para se conseguir um parto mais respeitoso.

mas atenção: ela é fundamental, mas não responsável pelo seu parto, isso só cabe a você a mais ninguém. A doula é profissional que auxilia antes, durante e depois do parto. É ela quem irá cuidar do seu físico e emocional (te lembrando de respirar! de beber, de comer. Fazendo massagens e utilizando métodos não farmacológicos para o alivio da dor etc), pode também, oferecer o suporte a família ou ao acompanhante, que por ventura, fique nervoso demais.

⇒ Doula não é parteira, doula não pode fazer nenhum procedimento médico (como ausculta fetal e toque)

É ela também quem irá te orientar com seu plano de parto (falarei mais detalhadamente depois), e se você ainda não tiver uma equipe, a doula pode – não deve impor nada – te sugerir profissionais que atuam com a humanização.

Você encontra uma na sua região pelo site: www.doulas.com.br/

3 – Entenda seus medos. Percebo que mesmo com a vontade de ter um parto normal (no sentindo mais simplório da palavra) algumas mães ainda sentem medo, é importante se conhecer e desvendá-los, a doula também é peça chave nesse momento. Expor, trocar experiências é uma maneira de superar, afinal, só temos medo do desconhecido, né? E por isso, também que os grupos são importantes, e aqui já criamos um ciclo vicioso, em que uma coisa está diretamente ligada à outra.

4 – Contratar uma equipe. É aqui que as coisas ficam um pouco complicadas, porquê mexe no bolso. Por isso vou ser bem clara, não existe parto humanizado sem equipe humanizada, e não, esses profissionais não custam pouco. Mas antes de qualquer coisa, eles são humanos e por isso meu conselho sempre será: Converse com a equipe que deseja, explique a sua situação e seja sincera.  Eles não deixarão de cobrar, mas facilitarão o pagamento (digo isso porque conheço bastante gente que conseguiu assim) e aí que entram os métodos alternativos de renda, que vão desde “Vakinhas” ao chá de bebê que pede a contribuição em dinheiro (ao invés da fralda ou do presentinho de costume).

Mas se ainda assim você achar que não tem condições de arcar com essas despesas, o jeito é procurar o atendimento pelo SUS, e mais uma vez digo que as referências devem ser buscadas nos grupos de apoio. No Brasil hoje, temos pouquíssimas casas de parto e hospitais de referência humanizada, mas ainda assim é a melhor opção do que um hospital de convênio, por exemplo.

Se você não quer abrir mão do seu médico do convênio, achando que ele irá te proporcionar um parto normal, algumas perguntas que você pode fazer para ele são:

  • Trabalha em parceira com as doulas?
  • Qual a sua taxa de cesarianas?
  • Se meu bebê tiver cordão enrolado no pescoço, posso ter parto normal?
  • Posso escolher posições durante o trabalho de parto? Comer? Beber?

Se a resposta for NÃO para algumas dessas perguntas, fuja.

5 – Plano de Parto. Documento indispensável para quem busca um parto humanizado, pois é lá que estarão expostas vontades da gestante/casal, claro, que sempre dentro do que é seguro para a mãe e o bebê. Mas lembrando, qualquer procedimento que seja necessário e estiver fora do plano de parto, a gestante deverá ser orientada/informada e só depois decidir se aceita ou não (dentro do que é seguro que ela decida). Geralmente às equipes humanizadas gostam de ler antes e fazer as ponderações, ou não, junto a gestante/casal.  Importante nesse ponto, em caso de parto hospitalar, de protocolar o documento junto ao hospital desejado.

» disponibilizo um modelo no final «

* Circular de cordão e bebê que faz coco (Mecônio) na barriga, não são indicações reais de cesariana, conforme indica as evidências científicas. Disponível também no blog da Dra. Melania

Continuar a ler