A chegada da Celina // Relato de parto domiciliar parte III

Bom, já falei do quanto o marido foi maravilhoso em todo o trabalho de parto, né? Mas nunca na vida, nem nos meus melhores planos eu imaginava que ele entraria na piscina comigo e participasse tão ativamente do parto, então, antes de continuar o relato, eu gostaria de abrir um parenteses enorme para falar da importância da informação. Informação é poder. Quem leu a primeira parte do relato vai lembrar que na consulta com a Gisele, o Gustavo disse que queria ter se informado mais para o parto da Laura. O que ele não teve de informação lá atrás, ele teve agora. E eu, mesmo achando que sabia o suficiente, participei com ele das rodas e o curso de preparação para o parto foi um divisor de águas pra nós. Ele sabia exatamente o que fazer e o que esperar de cada “fase” do parto e isso com certeza contribuiu para que tenha sido tão maravilhoso como foi.

Mas eu sei que vocês querem relato, então sigamos…

Deixa eu voltar um pouquinho porque lembrei de uma coisa. Ainda no Puff, a Dri me perguntou se eu gostaria que trouxesse a Laura, ela tinha ido pra um hotel com meus sogros e era relativamente perto de casa. Não quis, não sei porquê, mas tava tudo muito bom do jeito que tava e eu preferi deixar ela quietinha lá e eu quietinha aqui.

(para melhor experiência de leitura recomendo dar play nessa música que embalou nosso trabalho de parto)

Quando fomos para a piscina, que estava em um dos quartos, o dia ainda não tinha clareado, a nossa manhã de domingo foi chegando aos poucos e tornando cada segundo mágico. Gustavo entrou na piscina, me apoiei nele e comentei que era bem gostoso estar na água. E a Gi perguntou qual era melhor, o puff ou a piscina e eu respondi “o puff na piscina”. Eu seguia com calor e prendi o cabelo, tinha deixado um lacinho no braço pra fazer isso (lembram que eu estava consciente de tudo? Pois é!). Encostei no Gustavo, fechei os olhos e relaxei… Já estava claro quando vi a Ana Paula (neonato) passando na porta e me dizendo “oi”, pouco depois a Camila (parteira), não sei se nessa ordem.

Se você está acostumando a ler relato de parto deve estar esperando a hora que a dor muda, pois então, foi na piscina que o expulsivo chegou de verdade, veio aquela vontade de fazer força e o “urro” que fica bem no meio da garganta se libertou. Apesar de eu estar muito consciente de tudo, também estava muito conectada com meu corpo, a vida acontecia nos outros cômodos da casa, mas pra mim, o mundo todo era meu corpo trabalhando pra trazer Celina à luz.

A contração vinha, eu me posicionava da melhor maneira e liberava meu lado selvagem. O urro era gutural, instintivo. Já era dia e se alguma coisa estava me travando, era o “medo” dos vizinhos tocarem na porta, agora não podiam mais, quer dizer, podiam, mas eu também podia “fazer barulho”. Então me libertei, relaxei (sim, dá pra relaxar mesmo no expulsivo) e é realmente impressionante como parece que “nada” está acontecendo, eu conversava, toda hora perguntava se tava perto, se ela tava chegando. Foi quando a Gi disse que eu podia me tocar pra saber (gente, como nunca pensei nisso? Claro que podia me tocar! Meu corpo, meu bebê, como não pensei nisso antes? Pois é!). Me tocava e não sentia nada, ainda perguntei o que eu deveria sentir, a Gi botou o dedo no meu joelho e disse “osso, você tem que sentir um duro assim“, fui tentar de novo, só sentia coisas moles, era o tampão mucoso, aquele mesmo que eu achei que estava saindo dias antes do parto e não estava, ele tava ali e eu o tocava e puxava as partes que estavam soltas.

A ordem dos acontecimentos não está muito precisa, mas acho que isso também não é relevante nesse momento… Eu sei que me mexia pra caramba, procurava posição. As meninas vinham com a mangueira de água quente na minha lombar pra aliviar a dor (a mangueira foi ligada no banheiro do meu quarto, aquele mesmo que eu falei que era apertadinho e como nosso chuveiro é a gás, a água esquentava que era uma beleza).  Vinham com água pra eu beber e suco de uva (que era a única coisa além de água que descia). Teve uma hora que eu fiquei de joelhos, dei a mão pro Gustavo e comecei a duvidar, internamente, da minha capacidade (ao contrário do parto da Laura, não verbalizei em nenhum momento que não iria conseguir), mas ao mesmo tempo me veio a mente todas as mulheres que já pariram (e eu mesminha já tinha passado por isso), e coincidentemente a música que tocava era da Nina Simone, Ain’T Got No (leia a partir daqui ouvindo essa maravilha)

 

Vocês tem ideia da força dessa canção? Eu já amava e agora ela tem um significado especial, eu ganhei força e algo mais que jamais serei capaz de descrever. Quem passou pela experiência vai saber do que eu estou falando. Caramba, eu estava na minha casa, com meu marido, amor da minha vida e prestes a conhecer nossa segunda menina, não passava mais pela minha cabeça a fraqueza e fui tocada por uma tranquilidade que agora era visível, eu passava a mão na barriga, Gustavo tambem, a Dri vinha auscultar a Celina e como eu disse antes, fora da contração é dor zero. A natureza estava presente em mim e vinha com força, já na parte “final” do expulsivo eu fiquei de costas pro Gustavo, ele com o potinho de sorvete me jogava água nas costas, a Gi sentou (ou jé estava sentada?) na frente da piscina, me deu as mãos e quando a contração vinha eu apoiava a cabeça na borda da piscina, apertava as mãos dela e urrava. Me lembro de chamar pela Celina “Vem filha, vem Celina”. A Gi saiu pra pegar alguma coisa, a contração veio e ainda bem que a Dri estava na minha frente, uma das  mãos dela segurava o sonar e a outra eu esmagava com as minhas duas mãos, contração passou e a Dri fez a ausculta de novo.

A Gi voltou, me deu as mãos e eu seguia com meus urros e ainda me tocava pra tentar sentir alguma coisa (todas as tentativas foram sem sucesso, só sentia coisas moles… rs) a Dri se enfiou num cantinho que só cabia ela, que é pequenininha… Em algum momento eu reclamei que tava com dor nas costas e tentei ficar de cócoras, a Gi me aparece com um pano (rebozo) e pede pra eu segurar, já que era difícil me manter na posição. A Dri orientou o Gustavo a ficar atrás de mim pra dar um apoio, e a força  parecia que estava cada vez mais forte, eu pedi ajuda “o que eu faço? Me ajuda!!” A Gi dizia que eu estava indo bem, que era isso mesmo, coloquei a mão por baixo e ploft senti a bolsa estourando e anunciei “estourou a bolsa” alguém falou “ótimo” e na próxima contração já era a cabecinha dela… que mistura doida de sentimentos, não sabia se chorava, se ria, eu estava aliviada com certeza, coloquei a mão pra tocar nela e comentei que era cabeluda, Gustavo também fez um cafuné na cabecinha dela. Me lembrei da Graciela, a fisioterapeuta de períneo, em vários momentos, e por isso, só fazia força quando vinha a contração e lembrava o tempo todo de respirar fundo.

A Camila (outra parteira) apareceu do nada na minha frente e me ajudou a amparar a Celina, eu tinha escrito no relato que queria ser a primeira a pegar, mas depois que saiu a cabeça eu fiquei meio sem reação e a Camila me lembrou “Vai, segura sua filha” e com a ajuda dela, Celina nasceu, as 7h01 do dia 05/03/2017. Imediatamente levei ela pra perto do meu peito, falei, ainda chorando, que ela não precisava chorar, que a mamãe e o papai estavam ali e desejei boas vindas.

A Dri pediu pra subir ela um pouco pra não engolir água, mas o cordão era pequeno e não dava… rs. Acabou, a dor sumiu e dava lugar para um monte de sorriso frouxo, o amor transbordava no ambiente, ficamos namorando nossa garotinha até a água ficar quase fria, ela, toda exibida passava as mãos no rosto por causa da luz, bocejava e  mostrou a língua, a tranquilidade de um bebê que nem sabia que tinha nascido… a Ana Paula ainda comentou “peixes com ascendente em peixes, pode deixar ela nessa água aí”. As meninas forraram minha cama com os lençóis descartáveis e eu sai da água para dequitar a placenta, a Celina fez um cocô na mão da mamãe…rs  Ainda grudadinha no cordão, deu até um certo trabalho pra sair da piscina, Ana Paula me ajudou a segurar a bebê, alguém segurou um tapetinho descartável  pra não ir pingando sangue pela casa… rs

Na minha cama, com minha menina no colo (bem possessiva, pq é bom demais estar na casa da gente), esperando a saída da placenta, que já estava ali na portinha, esperando só uma força pra se desligar totalmente. O parto terminou oficialmente por volta das 7h20, Gustavo ligou pra mãe dele “Mãe, traz a Laura pra conhecer a irmã… Ah, traz café da manhã pra equipe, está todo mundo com fome”. Queríamos que ela cortasse o cordão, ela expressou essa vontade algumas vezes durante a gravidez, A Gi veio me perguntar se eu queria comer alguma coisa, falei que tinha pão de queijo no congelador, que ela poderia assar, ela passou um café… Ah, cheiro de café com cheiro de vérnix, está na minha lista de melhores sensações do mundo.

Gustavo foi tomar banho, Celina estava tentando entender o que era o peito, dava umas lambidinhas e só depois mamou. A Camila avaliou o períneo e estava íntegro, e claro que isso é motivo de comemoração,  não fiz os exercícios e o epi-no atoa! Gustavo saiu do banho, deitou na cama ao meu lado, passei a Celina pro colo dele, ela ainda estava ligada a placenta, peladinha coberta só com uma fraldinha de pano. Peguei o celular e tinha um monte de mensagens no grupo das amigas do condomínio perguntando se nasceu (certamente ouviram meus gritos), mandei uma foto nossa, liguei pra minha mãe e pra minha vó e pedi pra ela me trazer uma marmita (de macarrão com feijão). Gustavo comentou que a Celina soltou um pum, levantei o lençol pra olhar e ela tinha feito mais cocô. Chamei pelas meninas, a Dri limpou ela e devolveu pro nosso colo, 1h depois da ligação a Laura chega. Ficou parada na porta do elevador, olhando pra parede, chamaram pelo Gustavo pra ir pegar ela, ela veio no colo, não falou uma palavra. Eu estava com a Celina no colo e ela entrou no quarto com os olhos marejados, ainda sem palavras, só olhava… tentei filmar mas foi um fiasco.

Ela subiu na cama, deu um beijinho na cabeça da irmã e começou rir atoa. Falei que a Celina tinha trazido um presente, Gustavo pegou no armário, e ela não se aguentava de felicidade, era uma boneca da Draculaura, ficou toda encantada. Chamamos a Ana Paula e adivinhem só, Laura não quis cortar o cordão, então o papai cortou na frente dela, Ana colocou a balança no chão e pesou: 3.060kg, pedi pra Laura buscar uma roupinha pra colocar nela, a Camila ajudou a colocar, tiramos a foto da equipe e chamamos minha sogra pra conhecer a neta mais nova. Levantei e entrei no chuveiro pra tomar banho, tomei bronca da Camila porque não poderia levantar da cama sem avisar… rs. Entrei no chuveiro e  nem dava pra acreditar de tão maravilhoso que era tudo, tomei aquele banhão delicia e a com a ajuda da Camila me enxuguei e coloquei roupa. Ah, o grupo da família estava eufórico e todos queriam conhecer a Celina, vieram os tios, os primos, e os bisos da parte do Gustavo. Mais tarde meus avós, a Gabi, uma amiga querida que mora em Brasília mas estava em Campinas nesse final de semana (muita sorte) e quase no final do dia a minha mãe.

Levantei e tomei café da manhã, a Camila e Adriana trocaram o lençol da minha cama e deitei de novo num lençol limpinho e cheiroso. Vou ser redundante e dizer que foi tudo maravilhoso, vocês não tem ideia de como é bom parir em casa. As parteiras arrumaram as coisas, a casa estava em perfeito estado, parecia que nada tinha acontecido.

Quatro dias depois a Ana Paula voltou pra fazer as avaliações e medir: 49cm (igual a Laura) e foi só nesse dia que Celina tomou banho pela primeira vez e de chuveiro, com ajuda da doula amada.

E claro, não poderia terminar esse relato sem dizer: tenham seus filhos em casa (se for gestante de risco habitual, claro). É tão incrível que chega ser indescritível, só quem passa por essa experiência tem ideia da dimensão que é tudo isso. Não quer ter em casa? Tenha no hospital, mas contrate uma equipe que te respeite, e sim, dá pra negociar, fazer permuta, eu fiz e deu certo. Economize em tudo, menos no parto, só se nasce uma vez.  Enxoval? acredite que muita coisa que falam pra comprar você não vai usar, seu filho não precisa de coisas personalizadas, de carrinho de mil reais, de um quartinho montadinho onde ele não vai ficar. Seu filho precisa chegar nesse mundo com amor, por que isso, senhoras e senhores, não tem volta.. todo o resto a gente consegue correr atrás depois.

 

Meu agradecimento especial a essa equipe maravilhosa que agora faz parte da nossa história.
Adriana e Camila, vocês acreditaram em mim desde o primeiro encontro, gratidão por serem tão iluminadas.

Gi, aaah, Gi o que falar de você? Sempre digo que é a calmaria no caos, você é luz e sabe disso. Gratidão por estar com a gente em mais essa aventura e ser tão generosa.

Kelly, que coração enorme e que pessoa linda. Obrigada por aceitar fotografar nossa família e alegrar esse dia com seu bom humor.

Ana Paula, obrigada pela tranquilidade que transmite.

Marido, ai marido, sem palavras pra você. Minha admiração por você só aumenta, gratidão por escolher passar por tudo isso junto comigo por inteiro, você foi e é um pai maravilhoso.

Ah, e uma foto minha tomando café pra vocês verem como eu estava maravilhosa e um trechinho de outra música que estava na nossa playlist e tem tudo a ver com a ocasião.

“Não é sobre chegar no topo do mundo
E saber que venceu
É sobre escalar e sentir
Que o caminho te fortaleceu”

 

#Artigo: O dia do lanche

29 dias pós parto. Acorda. Acorda? Levanta da cama. Acorda a mais velha, “bom dia dona do lanche”. Volta pro quarto, tira o pijama. Xixi… esqueci de fazer xixi. “Laura, não esquece de fazer xixi”. Fiz. Coloquei a roupa. Troquei a fralda da mais nova. 

Coloquei os pastéis pra fritar na airfryer, quatro por vez, são 32. “Laura, levanta, coloca a roupa”.

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Primeira leva de pastéis fritos, tira da panela, queima a mão. “Laura, coloca a roupa”. Mais uma leva de pastéis indo pra panela. “Mãe, posso ajudar?”. Pequena chorou, pega no colo. Volta pra cozinha, “cadê a tampa do pote? A tampa, cadê ela?”. “Laura, primeiro põe a roupa, depois ajuda”.

“Mãe, tô com dor na barriga”. “É fome, come”. Mais pastéis. Pausa pro mamá, mamou, arrotou, carrinho. “Laura, coloca o tênis”. Chorou, balança o carrinho. “Mãe tô com dor na barriga”. “É fome, quer uma banana?”. “Banana quente com mel e canela”. Coloca a roupa na máquina pra lavar. Chorou. Pega bebê no colo, corta a banana, esquenta. “Laura põe o tênis, banana ta na mesa”. “Tá difícil, não consigo”. Outra leva de pastéis. “Não consigo te ajudar agora, to com a Celina no colo”. “Mãe, ta difícil”. “Vai só de meia então”. Chorou, a mais velha, chorou. Tira os pastéis da panela, coloca mais. “Laura come a banana”. “Mas mãe, tá difícil o tênis”. Pega o suco, a fruta, põe na sacola. “Laura são oito horas, sabe o que isso significa? que sua turma toda ta na sala de aula e você ta aqui comendo banana”. Bebê chora. Põe pra mamar, mamou. “Laura, vamos”. Coloca mais uma leva de pastéis pra fritar. Celina no carrinho, suco e fruta na sacola. Celina chora. “Laura chama o elevador”. Pega a mochila, a sacola, empurra o carrinho. Bebê para de chorar, chega no carro, guarda a sacola, pega o bebê, coloca no carro, fecha o carrinho. “Laura sobe na cadeirinha”. Bebê chora. Fecha o carrinho, abre o porta mala, guarda. Bebê segue chorando. Entra no carro. Bebê chora. Carro anda, bebê para de chorar. Carro para, bebê chora. Andamos por 2 minutos. Bebê dormiu. Chega na escola. “Laura desce do carro e corre pra sala, boa aula, tchau”. Abre o porta mala, abre o carrinho, coloca o bebê no carrinho. Pega a sacola com a fruta e o suco. Leva na cantina. Volta pro carro. Coloca bebê no carro, fecha o carrinho, guarda no porta-malas. Chega em casa, estende a roupa no varal, bebê dorme. Tira pastel da panela, coloca mais. Passa um café, manteiga no pão, pão na frigideira. Pipoca! Ela quer pipoca! Pega a panela, frita a pipoca, café coado, toma um gole ainda em pé. Pega o pão, mais café. Pastel, não acabou, não esquece de colocar. Bebê chora, quer mamar, mamou. Colo. Pastéis fritos, todos eles, o pote não fecha, plástico filme nele, com uma mão só. Uma mão é para o bebê e a outra é pra fazer todo o resto. Pote fechado, pipoca pronta. Bebê no carrinho, pipoca e pastel no carrinho. Vamos pro carro. Bebê dorme. Vai pra escola, leva o resto do lanche, entrega pra filha mais velha. São 9h20, e esse é apenas mais um dia na vida de uma mãe. 

Vai um pastelzinho aí?

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A chegada da Celina // Relato de parto domiciliar parte I

Eu gosto de contextualizar as situações (se você quer ir direto pro parto, espere o próximo post…rs), pois bem, o parto da Celina começou antes mesmo de me imaginar grávida novamente. Quando a Laura nasceu, há 5 anos, eu achava que estava no melhor dos mundos no que se refere a nascimento com respeito. Foi um parto incrível, mas um cenário caótico, o relato pode ser lido aqui. Na época eu me achava informada, mas como as coisas mudam, e informação nunca é demais e eu continuei lendo muito sobre parto, procedimentos necessários e desnecessários etc etc etc.

A Laura desde seus 2 anos pedia pra ter irmã/o, e nós esperamos o melhor momento para que isso acontecesse, Celina veio de uma gestação planejadíssima, foi muito desejada, principalmente pela irmã, que ficou emocionada quando contamos que a sementinha na barriga da mamãe era uma menina.

Fiz meu pré natal com a dra. Patricia Varanda, eu já a conhecia e foi maravilhoso ter o acompanhamento de uma pessoa querida nessa fase tão importante para nós. O parto domiciliar já estava nos planos, nos meus, o marido ainda não tinha verbalizado nada a respeito, mas, segundo ele, já sabia que seria essa opção. Primeiro por causa da experiência não tão satisfatória do primeiro parto (em relação a hotelaria do hospital), segundo porque eu queria que a Laura pudesse ser uma das primeiras a conhecer a irmã e viver aquele momento com intensidade (no hospital ela só poderia ir em horário de visitas e por 15 min).
Com 7 semanas enviei mensagem pra Gi (Gisele Leal), ela ainda não sabia, mas seria minha doula novamente. Com 12 semanas fomos viajar e eu mal me lembrava que estava grávida. Na volta, precisaríamos decidir qual seria a equipe que nos acompanharia nessa jornada, não que fosse uma necessidade real, eu é que precisava de uma equipe pra chamar de minha, só assim seguiria a gravidez com tranquilidade. E em Campinas o dilema é que temos  equipes muito boas, o difícil é decidir entre elas. O critério utilizado por mim, foi aquela que fez meu coração bater mais forte, pois todas são extremamente competentes, então esse não era um problema.

Ainda no primeiro trimestre, combinamos uma reunião com a Gi, ela nos perguntou o que mudaríamos do parto da Laura, eu disse que não queria que a bebê fosse tracionada (tirada antes de nascer completamente) – no parto da Laura eu pedi para que isso fosse feito. O Gustavo disse que teria se informado mais. Bom, voltando para a equipe, quando fomos conversar com as meninas do Arte de Nascer (Adriana e Camila), acho que estava com 19 semanas (é isso mesmo, meninas?). Saímos de lá maravilhados, Gustavo elogiou bastante a postura, mas deixou claro que a definição da escolha estava em minhas mãos. Elas sairiam de férias em Novembro, então além da minha presa, tinha meio que um prazo para garantir a data. As escolhi, ou melhor, fomos escolhidas. Porque acho que equipe é preciso ter uma ligação a mais e isso a gente tinha.

Com 20 e poucas semanas fizemos um curso de preparação para o parto, lá no Espaço Mulheres Empoderadas. Como eu chorei nesses dois dias de curso, foi um momento de entrega total a nossa segunda filha e de cumplicidade entre eu e meu parceiro. E foi nesse curso que tive pela primeira vez medo da dor do parto, uma dinâmica com gelo colocou a minha capacidade de parir na dúvida. Mas a Gi estava lá e o Gustavo também, então fui lembrada que sentir dor é diferente de sofrer.

O tempo foi passando e a barriga crescendo, bem como as dores devido ao peso dela, é aqui que entra uma pessoa “chave” para o preparo do meu corpo pro parto, a fisio Graciele. Com 32 semanas fiz uma consulta, ela me ensinou a massagem no períneo e também a usar o epi-no (aparelho alemão que simula o expulsivo), com 35 voltei lá com o Gustavo e ela ensinou como ele poderia me ajudar no preparo do períneo. A Gi nos emprestou o epi-no e aqui conto uma coisa, é pior que parir de “verdade”, o aparelho pelo menos,  serviu para aproximar ainda mais do Gustavo, já que precisava dele pra usar.

O acompanhamento de pré-natal com as parteiras começaria a partir de 37 semanas, então,  um dia antes de completar as tão esperadas 37 fiz uma consulta com a Dri e ela me disse que Celina estava encaixada e “pronta” pra nascer, e como Laura nasceu de 39+2 ela não acreditava que eu chegasse até essa idade gestacional. Mas eu não tava ansiosa, muito pelo contrário, eu tava tranquila, curtindo o barrigão, além disso, queria que nascesse em março, pois uma semana antes da DPP era carnaval e eu não queria que nascesse nessa época. Mas psicológico é fogo, né? Foi a Dri dizer que estava pronta que comecei a achar que iria nascer a qualquer momento, até saiu uma “gosminha” na calcinha e eu anunciei pra todo mundo que era o tampão, até hoje não sei se era realmente.

A Dri me ligou para remarcar a consulta da semana 38, mas disse “se ela quiser pode nascer esse final  de semana (do dia 18/2) que tá tudo bem!” Eu ponderei: “Ela vai nascer em março, dia 3, igual a irmã”. Rimos, no sábado (18) a Gi também mandou “Estou indo pra formatura, mas qualquer coisa me liga que vou atender seu parto de longo” e eu também disse que ela poderia ficar tranquila que Celina só viria em março. Pois bem, eu disse que psicológico é fogo, eu que estava super apegada na barriga, comecei a não querer ser mais grávida. Isso aconteceu depois da pintura que eu fiz, também no Espaço Mulheres Empoderadas, no dia 19.

Eu já tinha aproveitado tudo o que podia de gravidez, e comecei a ficar “bodeada”, estava com muitas dores nas costas, no púbis e de saco cheio das pessoas perguntando “não vai nascer não?!” “e a Celina?!” (sim, não menti a DPP, mesmo dizendo que era pra março, no meio de fevereiro as pessoas já queriam ver um bebê). E foi aí que começaram os pródromos (falso trabalho de parto), chegava a madrugada eu sentia as contrações, amanhecia elas paravam. Cheguei a mandar mensagem pra Dri dizendo que nasceria “uma foliã” já que estava bem na semana carnavalesca. Nessa semana teve uma noite que as contrações estavam intensas, cheguei a acordar o marido e dizer que a Celina estava chegando. Mas ainda não era o momento e segui na expectativa.

Na gravidez da Laura eu não tive nada disso, quando comecei a sentir contração era ela pronta pra nascer. E ficar nesse “nasce-não-nasce” mata a gente, eu estava física e psicologicamente cansada. Cheguei nas 39 contrariando as expectativas de todos (até as minhas, por mais que eu quisesse que nascesse em março eu comecei a duvidar dessa possibilidade). Com 39+5 a Dri veio me avaliar, disse que eu estava ótima e a Celina boa pra nascer, perguntou se eu queria que viesse logo e eu disse que sim, então me receitou umas homeopatias para trabalhar o colo. Como “ajuda” nunca é demais, marquei acupuntura com a Gi (39+6), e foi muito gostoso, é muito bom estar com a doula da gente, a Gi me passa uma tranquilidade que eu não tenho, me explicou sobre acupuntura e deixou claro que não induz parto, que o bebê nasce quando está pronto pra nascer. Nesse dia também era o aniversário da Laura, então preferi “desconectar” um pouco da gravidez e focar minha atenção na filha mais velha, foi bem gostoso pra nós.

Na madrugada de sexta a coisa começou a pegar. contrações de 5 em 5, liguei pra Gi, ela me pediu pra ficar 65min no chuveiro. Antes de ir, acordei o Gustavo, pedi pra ele ir até a portaria levar a autorização de entrada da equipe, enquanto eu estava no chuveiro ele tratou de seguir o plano de parto e foi organizar a casa. Claro que eu não fiquei 65min no chuveiro, foram apenas 30min e duas contrações, a Gi perguntou se queria que ela viesse mesmo, eu disse que se a coisa pegasse de verdade eu avisaria.
No sábado (quando entrei nas 40 semanas) meus sogros e cunhados viriam pra cá (por causa do aniversário da Laura), e ela, logo pela manhã foi até a janela do quarto dela e gritou “Cegonha pode trazer minha irmã” . A tarde, fomos almoçar numa churrascaria, eu comi pouco, porque estava com medo de comer muita carne e dar “ruim” na hora do parto (a gente meio que sente as coisas, né?). A tarde sai com a sogra e a cunhada pra bater perna em uma loja que vende quase tudo…. rs, praticamente passamos a tarde dentro da loja e foi ótimo pra minha cabeça, distrai. A noite fomos comer num restaurante perto de casa, me entupi de fritura. Meus sogros tinha combinado de dormir em casa, mas o Gustavo pediu para que eles fossem pra um hotel e levasse a Laura. Nos despedimos, meu cunhado deu um beijo na minha barriga (ele nunca tinha feito isso) e falou “agora nasce”. Meus sogros foram com a Laura pro hotel e meus cunhados voltaram pra SP, e é aí que o parto começa.

40 semanas e um dia

Continua no próximo post….

#Artigo: Suas orelhas, suas regras

O sol nos queimava os neurônios, mesmo nos poucos metros de caminhada até o ar condicionado mais próximo. Ela, estava no meio, de mãos dadas comigo e com a vó Nês e parecia não se importar com aquele calor todo, logo ela que detesta sol, calor e afins.

Pulava, falava mais do que de costume, se é que isso é possível. Talvez fosse a ansiedade, talvez o nervoso que tanto negara, mas uma coisa era certa: estava decidida e nada do que eu dissesse iria mudar.
Expliquei um milhão de vezes que poderia doer, mas que ainda assim, era uma dor passageira e em todas as vezes ela me respondia: “Eu tenho coragem, sou forte!”
É verdade também que protelei este momento, mesmo quando ela me disse que estava pronta, eu é quem não estava, enrolei até quando pude, ou melhor, até ontem.

Chegamos até o ar condicionado, que alivio. Ela ainda no mesmo ritmo de minutos antes. A vó, mais calado do que de costume, aliás, minutos antes avisara: “se doer de um lado, continua firme que tem o outro”. Laura tentava se iludir: “talvez nem doa”.

Chegamos ao destino, mas ele ainda não estava selado. Era preciso passar pelo ritual de escolha. Ela fez, ainda com a mesma alegria da qual saímos de casa. Pegou em sua bolsa cor-de-rosa a carteira enfeitada de adesivos do frozen, foi até o balcão, pagou com o dinheiro que conquistou sendo neta. O colar com estampa da Ana (também do frozen), a sapatilha de borboletas e o vestido com desenho da Peppa denunciara sua inocente vaidade.

Há essa altura não tinha como voltar atrás, ela sentou no colo da vó Nês, teve os pequenos lóbulos sentenciados pelo marcador azul… e eu? Bem, eu tentava me entender com o celular, que em um momento tão único me deixou na mão. Enquanto isso, a enfermeira, aguardava o meu sinal e assim eu me tornara a responsável pelo “apito final”, mas antes, um último suspiro para o celular capturar o momento… Não deu!

Autorizei e no mesmo instante me arrependi. Tarde demais, estava feito, selou a vaidade com um símbolo de – quase- todas àquelas que nasceram meninas: sua orelha esquerda tinha agora um brinco. De florzinha, lindo, escolhido por ela, mas que de causou tanta dor.

Me olhou embargada, levou a mão na orelha… meu coração, há essa hora já estava parado e na garganta. Só consegui balbuciar: “pode chorar, filha”. E, como numa sintonia liberou seu grito de dor e junto com ele, a orelha direita, e agora, sem a minha autorização, recebia também um brinco de florzinha.

E como mágica, meu celular voltou a gravar e então, eternizei sua agonia, seu choro, sua dor… Tomou água, chorou, peguei-a no colo e numa tentativa (errada, talvez) de me eximir de culpa, lembrar-lhe que foi escolha sua.

Não tem como negar que foi sofrido, foi dolorido e que eu desejei sentir a dor por ela. A culpa me assombrou por longas horas até que ela parasse de reclamar. Encontrou as amigas do prédio e a dor “sumiu”, restava agora, só o orgulho; do brinco e da coragem que tivera.

Meu coração se acalmou. Porquê assim como em sua chegada ao mundo, quem escolhera o dia foi ela.

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Aqui, só para os fortes, são os gritos dela.

#Artigo: É preciso chuva para florir

A gente aprender a ter medo da chuva, sei lá porquê. Quando ela dá sinais de que vai aparecer ficamos apreensivos e cautelosos. Dentre tantos medos que colocam na gente, o da chuva é aquele bem misterioso.

Quando eu era criança, dia de chuva era um horror, não podia ir brincar na rua com meus amigos, e claro, isso era a pior coisa que podia me acontecer, os raios e trovões povoavam minha imaginação e me faziam tremer. Quando cresci, a chuva era inimiga das roupas molhadas no varal, das tardes de cerveja nos botecos, do cabelo recém-arrumado. A verdade é que nos acomodamos. Não me arrisco a pegar uma gota de chuva se quer, se preciso for, entro no meu carro e lá me mantenho seca.

Quando a falta da comodidade aparece é que temos que nos refazer, hoje, por exemplo, a chuva chegou sorrateira trazendo consigo um mar de preocupações. Como eu vou buscar minha filha na escola sem carro?! Parecia o fim do mundo. Mas quando a gente enfrenta os medos que a vida dá, fica mais fácil. Enfrentei – por sugestão e apoio de uma colega -, botei minha pior roupa, meu sapato mais velho, na sacola plástica guardei uma capa de chuva e um par de galochas. Lá estava eu, cara-a-cara com aquela que por tanto tempo não me tocava. Convidei minha filha para encarar junto comigo, afinal, que outra oportunidade teríamos? Já que as chuvas tem sido raras por aqui e quando vem, olhamos tudo de dentro de nossa gaiola, protegidas.

Já dizia Almir Sater, “é preciso chuva para florir” e foi nela, pisando nas poças de água que iluminavam o asfalto, de mãos dadas com a Laura. Que, fizemos desse solo seco e infértil, um lindo jardim florido.

#Artigo: Homem de Ferro pra quem quiser

É uma via de mão única, enquanto a maioria das mães tentam mostrar que o mundo pode ser um lugar legal sem distinção de gêneros por cores e determinados brinquedos, algumas empresas fazem questão de dar ênfase justamente nesses pontos. Lojas divididas entre meninos e meninas, com azul e rosa, respectivamente. Na sessão de brinquedos é assim: carrinhos e super heróis para eles, princesas e panelinhas para elas.

É tão comum e tão enraizado que nem nos damos conta, ou se damos, não nos indignamos. Mas aqui não. A luta diária que tenho para mostrar para minha filha que ela pode brincar com o que quiser, que pode vestir com o que quiser não cairá por terra. Pois, além de tudo, o intuito é criar uma mulher empoderada, que sabe o que quer e não precisa que a mídia ou ninguém diga à ela o que fazer.

Pois bem, nesta mesma linha de raciocínio que, ao pegar uma revista institucional de um Shopping quero ver brinquedos intitulados: Brinquedos para crianças ou brinquedos de crianças. Mas, infelizmente, não foi o ocorreu quando peguei a edição 17 (Mai/15) da Revista Parque d. pedro mag (revista do shopping Parque Dom Pedro, de Campinas/SP). Lá na página 43, na qual contém a seleção de alguns produtos das lojas localizadas  neste shopping, está um boneco do Homem de Ferro, com os dizeres: Homem de ferro para meninos.

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Não, meus caros Tiago Guimarães, Patrizia Ramalho (direção geral), não agência MOB36 de conteúdo, meu caro editor Renato Piccinin: Homens de ferro não são para meninos; homens de ferro, assim, como qualquer outro brinquedo, são para crianças, sem distinção de gênero. E eu estou escrevendo isso, justamente porque minha filha adora esse personagem e ela é a prova de que não é preciso ser menino para gostar de super-heróis, carrinhos e tudo o que vocês acham que é “brinquedo de menino”.

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Peço: parem de diferenciar brinquedos por gênero, se quer atrair público/cliente para essas lojas, façam a coisa certa. E digo mais, a fiscalização aqui continuará, assim como o boicote enquanto não houver uma mudança drástica no tratamento da editoria voltada para as crianças.

#Artigo: Mãe, o que é escravo?

Quem a conhece sabe o quão sagaz ela é, e foi numa dessas que, ao cantar e me ouvir cantar a cantiga “Escravos de Jó” surgiu a dúvida: Mãe, o que é escravo?

Claro que demorei um pouco até pensar numa resposta, então, soltei: Eram pessoas que trabalhavam para outras pessoas, e, se não trabalhassem direito, apanhavam.

Ela, olhando para os ladrilhos da calçada: Não gostei! Apanhar dói.

É filha, dói, mas isso não existe mais.

….

Não existe mais? Da forma como aconteceu não, mas trabalho escravo ainda existe. Mais que isso, as consequências da escravidão são uma sombra na vida de quem carrega na pele essa ancestralidade. Sou branca e jamais poderei dizer que sei o que é racismo. Eu não sei, mas isso não me dá o direito de dizer que o racismo no Brasil não existe ou que “os tempos são outros e as coisas estão melhores”. Melhores ou veladas? Basta olhar a “cor de quem te serve”; quem apanha da polícia; quem, só por ser negro, é suspeito de roubo (e já teve caso de negro acusado de roubar [?] o próprio carro).

Para ir mais além, tentam “embrancar” o negro, dando as eles diferentes nomes para a cor da sua pele: moreno, moreno escuro, moreno claro, pardo. Ou, muitas vezes, elogiam um negro dizendo que tem traços brancos.

Sempre fui crítica, mas há pouco tempo conheci uma pessoa super empoderada que me fez olhar para as questões raciais com outros olhos, me fez ver que as propagandas não tem mulheres negras, as novelas, revistas, filmes não são protagonizados por negras e o cabelo é tachado de ruim.

Hoje é aniversário de 127 anos da Lei Áurea, data que muitos querem vender como um grande feito humanista para a sociedade, embora, o que poucos sabem, é que questões políticas foram  determinantes da abolição da escravatura. Apesar de serem libertos de seus cativeiros, nada foi feito para que essas pessoas se integrassem na sociedade, e como já disse acima, os negros ainda sofrem com a sombra desse passado.

Eu realmente gostaria de explicar o que foi – realmente – um escravo para minha filha, mas a história é tão obscura que foge do entendimento de qualquer ser humano, quem dirá de uma criança com 3 anos. Ainda que não seja capaz de esclarecer perfeitamente todas as dúvidas dela, tentarei a melhor forma de fazê-lo.

A história com os escravos não poderia acabar assim, ao relento, por isso, decidi buscar auxilio nos livros. Peguei na biblioteca da escola o No Tempo da Escravidão No Brasil (livro recomendando para crianças da 5º série do fundamental), por ter bastante figuras, decidi que me ajudaria. Ajudou. Contei para ela uma vez, duas, três, quatro… inúmeras vezes, por pedido dela! Depois ela saiu abraçada com o livro e me perguntou algumas vezes porquê a menina (protagonista da estória) estava chorando. Foi assim por dois dias.