Relato de parto pelo pai 3/3

E para encerrar  nossa trilogia, o fim que é o começo.

 

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Por acaso do destino, esse texto é o segundo e o terceiro de uma trilogia. O primeiro pode ser lido e entendido mesmo na ausência dos outros dois, mas se aproxima muito de uma mentira.  Esse é o segundo, porque aconteceu primeiro. E, ao mesmo tempo, o terceiro porque foi escrito por último.

Facilitando as coisas, é o seguinte. O primeiro não é uma farsa total, e você entenderá melhor o segundo se tiver lido o primeiro. O último, que talvez tenha começado a ser lido antes é outra história, que aconteceu depois dessa.

Enfim, depois de tantos números e enrolação vamos aos fatos. No começo contei que fui à casa de meus pais sem saber direito a razão. A verdade é que eu sei e foi dito naquele mesmo texto, era fuga. Minha primeira filha estava quase pronta, na barriga de sua mãe, e naquela época eu não sabia nada sobre parto, e evitei saber, porque era um jeito de eu tentar me enganar e evitar a mãe. Foi pior.

Depois mais a frente me refiro ao tempo de espera entre dois telefonemas usando algumas crenças e personagens mitológicos para dar dimensão da angústia, porém quem não me conhece pode criar uma imagem diferente de mim.

Já no carro criei toda uma cena de pressa porque era isso mesmo que estava acontecendo. Não tendo ciência dos planos de Patrícia para o nascimento de Laura não sabia o que significava ir à Maternidade, se tudo ia bem ou mal. E ocultei outra parte importante do meu despreparo, a doula Gisele no telefone me perguntou o que a gente tinha planejado para a maternidade, quarto e essas coisas. Eu não sabia responder, porque não tinha pensado em nada, para ser mais sincero ainda eu nem sabia que tinha que ter planejado isso e não conversei com a Patricia para saber se ela tinha planejado.

Na altura do texto que menciono a chegada ao quarto onde tudo já estava acontecendo, se tivesse usado mais detalhes talvez ficasse claro como eu parecia algum daqueles palermas que são os primeiros a morrer num filme de terror. Quando entrei no quarto, que era coletivo, se não me engano foi no meio de uma contração, a Patricia nua, a doula suportando ela. Se a minha memória não falha também o chão estava cheio de tampão e eu pensava “O que é isso? O que está acontecendo? Alguém está perdendo sangue!”. Para minha surpresa, por assim dizer, ela não estava deitada, e não tinha nenhum médico no quarto.

Outro fato que deixei de mencionar que durante a presença nesse primeiro quarto foi sugerido pela médica o rompimento artificial da bolsa e também foi mencionado um edema de colo. De fato, como mencionado no romance, eu fiquei bem calado mas o que se passava na minha cabeça era ‘Vai intervém, vai logo, por que está demorando tanto?’.  Eu não sei porque eu estava com tanta pressa se a Laura não estava.

Só para reforçar, quando eu leio de novo a conversa de anjo e céu eu até me emociono com as minhas palavras, mas esse perfil não tem nada a ver comigo. A sensação de impotência poderia até ser essa mesma, porém sem todo esse encanto.

Já me critiquei tanto por ter sido omisso naquele texto que agora vou me fazer um reconhecimento. Fui super honesto ao dizer que meu celular estava a vibrar no bolso da calça exatamente onde a mãe de minha filha, exausta, tentava se apoiar e relaxar durante o expulsivo. E daí essa honestidade se repetiu até o final. Chorei bastante mesmo.  Foi realmente emocionante ver a Laura nascer, pegar um bebê tão pequeno no colo… Eu pensava que eles já nasciam com o tamanho de uns 6 meses.

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Relato de parto pelo pai 1/3

 Algumas famílias surgem a partir de um casal que planejam ou não um filho, a nossa, nem éramos um casal e muito menos planejava filhos. Mas a vida, o universo, Deus ou seja ela quem for quisesse que a nossa família surgisse a partir de um bebê, a Laura veio para  nos unir e mostrar que o amor se constrói e é por isso que esse relato é um romance, como diz o Gustavo.
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Durante as férias de inverno de 2009, cansado da mesmice e das mágoas da minha solidão resolvi criar este blog contando as histórias que não vivi. Só hoje, dirigindo da casa da Laura para a minha, com os olhos em lágrimas, me dei conta que fiz algo para ser escrito.

Era 2 de março, sexta-feira, quando eu saí exausto de uma aula às onze horas da noite, depois de ter trabalhado a semana toda, atrás de uma carona com um amigo meu para São Paulo. Não sei dizer se eu estava perdido ou fugindo, mas fui.

Tarde cheguei, caí no sofá e por lá fiquei. Se minha memória não falha, por volta das quatro horas da matina acordei com meu celular. Fiquei bravo comigo mesmo, por ter esquecido de desligar a função despertador. Pelo menos foi o que eu pensei, porém quando o peguei, uma ligação de número desconhecido de Campinas. Aquele frio na barriga, ou na espinha. Ou em tudo.

Quem ligou foi Gleise, doula de Patrícia. Talvez fosse trabalho de parto, embora pudesse descansar, aliás devia descansar, e quando chegasse a hora ela ligaria de novo. “Descansar? Como? Minha filha está para nascer, sem mandar telegrama com aviso prévio, com data, com hora, tamanho e peso, garantindo que estaria saudável.”

Nas minhas contas o criador já tinha feito tudo, céu, terra, luz, fogo, animais, Eva e Adão e se preparava para descansar na hora do segundo telefonema. O celular contrariou dizendo que só tinham passado três horas. Era hora de cair na estrada, em breve se encaminhariam à maternidade, não sem antes avisar.

Eu recém habilitado, sem experiência de estrada pedi o socorro ao meu pai, que já estava meio esperto com as ligações em horários alternativos. Não sei se ele, eu ou os dois não notamos o ponto que a carruagem já estava e, por isso, o aviso de atualização de destino para a maternidade chegou antes que saíssemos da avenida principal do bairro.

Naquele momento farol vermelho, limite de velocidade, contra-mão e essas coisas que chamam de leis de trânsito deixaram de existir. Na rodovia, meu pai, a cada ultrapassagem ou manobra imprudente lembrava de se preocupar com minha educação de trânsito e me dizer que aquilo só fazia quem tinha muita experiência. Eu nem sei se notava.

Chegar na maternidade foi algo estranho, logo me explico. Enquanto meu pai procurava onde deixar o carro, eu com um sorriso que nunca tive disse à recepcionista:

-Moça, minha filha está nascendo. – Como se ela fosse a única bebê a nascer na maternidade.

Comecei seguindo as placas, depois deixei que meus ouvidos me guiassem até os berros.

Era assim, que de repente eu estava entrando no quarto durante o trabalho de parto da minha filha. Desde antes da decisão pelo parto humanizado (aceitação acho que cabe melhor), já dizia com toda convicção que eu não entraria na sala, não seria forte suficiente.

E eu estava lá, desinformado, despreparado, calado, tentando fazer o que não sabia para ajudar a mãe da minha filha. As doulas se esforçavam para acalmar Pathy, sua mãe e eu. E ainda superar as barreiras que a infraestrutura da maternidade impunha.

Entre algumas caminhadas, chuveiradas, massagens e contrações da Patrícia, a outra doula, Gisele, me aconselhou a conversar com a Pathy, que eu ajudaria no parto. “Como posso eu ir ao céu e trazer cá um anjo”, foi o que pensei.

Finalmente entramos na sala de parto. Eu estava pronto… para correr o mais longe que eu pudesse, porém eu já via uma imagem de Laura, até a escutava e sentia seus bracinhos gordinhos se agarrarem aos meus pés.

Após algumas posições, carinhos, apoio, foi necessário desistir daquela sala. Fomos a outro quarto, onde uma banheira de plástico, improvisada e emprestada, tampando a saída do ralo, iria ajudar aliviar a dor.

No caminho eu me culpava, se tivesse pedido por um anjo com asas menores ele já teria conseguido pousar neste mundo. Se eu tinha achado que três horas tinham demorado a passar até um telefonema suponha se eu estava contando agora a minha quarta ou quinta vida.

Certo momento sobramos eu, perdido, e Pathy, informada, preparada e cansada. Não senti falta de ninguém além da minha nenê que se prolongava no suspense.

Quando tudo parecia melhor e se encaminhar bem, senti meu celular vibrando no bolso da calça, onde a Patrícia apoiava a cabeça no meu colo. Quis me matar. Talvez ela tenha me olhado com os olhos de “te perdoo”, talvez tenha sido coisa da minha cabeça.

Enfim a Patrícia sentiu algo além da dor. Eu quis levantar, correr em meio aquele lago de água e líquido amniótico que virou o andar da maternidade e trazer alguém que soubesse o que era. Ainda bem que não foi preciso, logo apareceu alguém.

Que coisiquinha mais linda! Sério! Que coisiquinha mais linda! Do fundo veio uma voz, 14:54. Do dia 03/03/2012. Foi a primeira vez que ela me fez chorar. A segunda, eu deixava sua casa para trás, e sentia muita vontade de abraçar toda a equipe e família que ajudou buscarmos esse anjo lá no céu para trazer muita luz. A terceira, e última até agora, mencionei o lugar, no começo do texto. O motivo, não sei se fui eu que ouvi, ou ela que falou. “Papai”.

Relato de parto pelo pai 2/3

Foi num grupo virtual de gestantes que percebi a necessidade do pai também externalizar suas experiências de parto, infelizmente, a maioria das mulheres não tem o apoio necessário de seus companheiros para que sigam firmes nessa jornada que é a busca por um parto respeitoso. Eu passei pelas duas experiências, sem e com apoio  da mesma pessoa (olha que incrível). E foi assim que pedi para meu parceiro que escrevesse sua experiência de parto, ele prontamente atendeu e eis que segue uma trilogia de nossos dois partos. Mas vamos começar pelo fim, com o relato do parto da Celina.

 

Gustavo pai da Laura, 5 anos e da Celina de 40 dias.

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A chegada da Celina // Relato de parto domiciliar parte III

Bom, já falei do quanto o marido foi maravilhoso em todo o trabalho de parto, né? Mas nunca na vida, nem nos meus melhores planos eu imaginava que ele entraria na piscina comigo e participasse tão ativamente do parto, então, antes de continuar o relato, eu gostaria de abrir um parenteses enorme para falar da importância da informação. Informação é poder. Quem leu a primeira parte do relato vai lembrar que na consulta com a Gisele, o Gustavo disse que queria ter se informado mais para o parto da Laura. O que ele não teve de informação lá atrás, ele teve agora. E eu, mesmo achando que sabia o suficiente, participei com ele das rodas e o curso de preparação para o parto foi um divisor de águas pra nós. Ele sabia exatamente o que fazer e o que esperar de cada “fase” do parto e isso com certeza contribuiu para que tenha sido tão maravilhoso como foi.

Mas eu sei que vocês querem relato, então sigamos…

Deixa eu voltar um pouquinho porque lembrei de uma coisa. Ainda no Puff, a Dri me perguntou se eu gostaria que trouxesse a Laura, ela tinha ido pra um hotel com meus sogros e era relativamente perto de casa. Não quis, não sei porquê, mas tava tudo muito bom do jeito que tava e eu preferi deixar ela quietinha lá e eu quietinha aqui.

(para melhor experiência de leitura recomendo dar play nessa música que embalou nosso trabalho de parto)

Quando fomos para a piscina, que estava em um dos quartos, o dia ainda não tinha clareado, a nossa manhã de domingo foi chegando aos poucos e tornando cada segundo mágico. Gustavo entrou na piscina, me apoiei nele e comentei que era bem gostoso estar na água. E a Gi perguntou qual era melhor, o puff ou a piscina e eu respondi “o puff na piscina”. Eu seguia com calor e prendi o cabelo, tinha deixado um lacinho no braço pra fazer isso (lembram que eu estava consciente de tudo? Pois é!). Encostei no Gustavo, fechei os olhos e relaxei… Já estava claro quando vi a Ana Paula (neonato) passando na porta e me dizendo “oi”, pouco depois a Camila (parteira), não sei se nessa ordem.

Se você está acostumando a ler relato de parto deve estar esperando a hora que a dor muda, pois então, foi na piscina que o expulsivo chegou de verdade, veio aquela vontade de fazer força e o “urro” que fica bem no meio da garganta se libertou. Apesar de eu estar muito consciente de tudo, também estava muito conectada com meu corpo, a vida acontecia nos outros cômodos da casa, mas pra mim, o mundo todo era meu corpo trabalhando pra trazer Celina à luz.

A contração vinha, eu me posicionava da melhor maneira e liberava meu lado selvagem. O urro era gutural, instintivo. Já era dia e se alguma coisa estava me travando, era o “medo” dos vizinhos tocarem na porta, agora não podiam mais, quer dizer, podiam, mas eu também podia “fazer barulho”. Então me libertei, relaxei (sim, dá pra relaxar mesmo no expulsivo) e é realmente impressionante como parece que “nada” está acontecendo, eu conversava, toda hora perguntava se tava perto, se ela tava chegando. Foi quando a Gi disse que eu podia me tocar pra saber (gente, como nunca pensei nisso? Claro que podia me tocar! Meu corpo, meu bebê, como não pensei nisso antes? Pois é!). Me tocava e não sentia nada, ainda perguntei o que eu deveria sentir, a Gi botou o dedo no meu joelho e disse “osso, você tem que sentir um duro assim“, fui tentar de novo, só sentia coisas moles, era o tampão mucoso, aquele mesmo que eu achei que estava saindo dias antes do parto e não estava, ele tava ali e eu o tocava e puxava as partes que estavam soltas.

A ordem dos acontecimentos não está muito precisa, mas acho que isso também não é relevante nesse momento… Eu sei que me mexia pra caramba, procurava posição. As meninas vinham com a mangueira de água quente na minha lombar pra aliviar a dor (a mangueira foi ligada no banheiro do meu quarto, aquele mesmo que eu falei que era apertadinho e como nosso chuveiro é a gás, a água esquentava que era uma beleza).  Vinham com água pra eu beber e suco de uva (que era a única coisa além de água que descia). Teve uma hora que eu fiquei de joelhos, dei a mão pro Gustavo e comecei a duvidar, internamente, da minha capacidade (ao contrário do parto da Laura, não verbalizei em nenhum momento que não iria conseguir), mas ao mesmo tempo me veio a mente todas as mulheres que já pariram (e eu mesminha já tinha passado por isso), e coincidentemente a música que tocava era da Nina Simone, Ain’T Got No (leia a partir daqui ouvindo essa maravilha)

 

Vocês tem ideia da força dessa canção? Eu já amava e agora ela tem um significado especial, eu ganhei força e algo mais que jamais serei capaz de descrever. Quem passou pela experiência vai saber do que eu estou falando. Caramba, eu estava na minha casa, com meu marido, amor da minha vida e prestes a conhecer nossa segunda menina, não passava mais pela minha cabeça a fraqueza e fui tocada por uma tranquilidade que agora era visível, eu passava a mão na barriga, Gustavo tambem, a Dri vinha auscultar a Celina e como eu disse antes, fora da contração é dor zero. A natureza estava presente em mim e vinha com força, já na parte “final” do expulsivo eu fiquei de costas pro Gustavo, ele com o potinho de sorvete me jogava água nas costas, a Gi sentou (ou jé estava sentada?) na frente da piscina, me deu as mãos e quando a contração vinha eu apoiava a cabeça na borda da piscina, apertava as mãos dela e urrava. Me lembro de chamar pela Celina “Vem filha, vem Celina”. A Gi saiu pra pegar alguma coisa, a contração veio e ainda bem que a Dri estava na minha frente, uma das  mãos dela segurava o sonar e a outra eu esmagava com as minhas duas mãos, contração passou e a Dri fez a ausculta de novo.

A Gi voltou, me deu as mãos e eu seguia com meus urros e ainda me tocava pra tentar sentir alguma coisa (todas as tentativas foram sem sucesso, só sentia coisas moles… rs) a Dri se enfiou num cantinho que só cabia ela, que é pequenininha… Em algum momento eu reclamei que tava com dor nas costas e tentei ficar de cócoras, a Gi me aparece com um pano (rebozo) e pede pra eu segurar, já que era difícil me manter na posição. A Dri orientou o Gustavo a ficar atrás de mim pra dar um apoio, e a força  parecia que estava cada vez mais forte, eu pedi ajuda “o que eu faço? Me ajuda!!” A Gi dizia que eu estava indo bem, que era isso mesmo, coloquei a mão por baixo e ploft senti a bolsa estourando e anunciei “estourou a bolsa” alguém falou “ótimo” e na próxima contração já era a cabecinha dela… que mistura doida de sentimentos, não sabia se chorava, se ria, eu estava aliviada com certeza, coloquei a mão pra tocar nela e comentei que era cabeluda, Gustavo também fez um cafuné na cabecinha dela. Me lembrei da Graciela, a fisioterapeuta de períneo, em vários momentos, e por isso, só fazia força quando vinha a contração e lembrava o tempo todo de respirar fundo.

A Camila (outra parteira) apareceu do nada na minha frente e me ajudou a amparar a Celina, eu tinha escrito no relato que queria ser a primeira a pegar, mas depois que saiu a cabeça eu fiquei meio sem reação e a Camila me lembrou “Vai, segura sua filha” e com a ajuda dela, Celina nasceu, as 7h01 do dia 05/03/2017. Imediatamente levei ela pra perto do meu peito, falei, ainda chorando, que ela não precisava chorar, que a mamãe e o papai estavam ali e desejei boas vindas.

A Dri pediu pra subir ela um pouco pra não engolir água, mas o cordão era pequeno e não dava… rs. Acabou, a dor sumiu e dava lugar para um monte de sorriso frouxo, o amor transbordava no ambiente, ficamos namorando nossa garotinha até a água ficar quase fria, ela, toda exibida passava as mãos no rosto por causa da luz, bocejava e  mostrou a língua, a tranquilidade de um bebê que nem sabia que tinha nascido… a Ana Paula ainda comentou “peixes com ascendente em peixes, pode deixar ela nessa água aí”. As meninas forraram minha cama com os lençóis descartáveis e eu sai da água para dequitar a placenta, a Celina fez um cocô na mão da mamãe…rs  Ainda grudadinha no cordão, deu até um certo trabalho pra sair da piscina, Ana Paula me ajudou a segurar a bebê, alguém segurou um tapetinho descartável  pra não ir pingando sangue pela casa… rs

Na minha cama, com minha menina no colo (bem possessiva, pq é bom demais estar na casa da gente), esperando a saída da placenta, que já estava ali na portinha, esperando só uma força pra se desligar totalmente. O parto terminou oficialmente por volta das 7h20, Gustavo ligou pra mãe dele “Mãe, traz a Laura pra conhecer a irmã… Ah, traz café da manhã pra equipe, está todo mundo com fome”. Queríamos que ela cortasse o cordão, ela expressou essa vontade algumas vezes durante a gravidez, A Gi veio me perguntar se eu queria comer alguma coisa, falei que tinha pão de queijo no congelador, que ela poderia assar, ela passou um café… Ah, cheiro de café com cheiro de vérnix, está na minha lista de melhores sensações do mundo.

Gustavo foi tomar banho, Celina estava tentando entender o que era o peito, dava umas lambidinhas e só depois mamou. A Camila avaliou o períneo e estava íntegro, e claro que isso é motivo de comemoração,  não fiz os exercícios e o epi-no atoa! Gustavo saiu do banho, deitou na cama ao meu lado, passei a Celina pro colo dele, ela ainda estava ligada a placenta, peladinha coberta só com uma fraldinha de pano. Peguei o celular e tinha um monte de mensagens no grupo das amigas do condomínio perguntando se nasceu (certamente ouviram meus gritos), mandei uma foto nossa, liguei pra minha mãe e pra minha vó e pedi pra ela me trazer uma marmita (de macarrão com feijão). Gustavo comentou que a Celina soltou um pum, levantei o lençol pra olhar e ela tinha feito mais cocô. Chamei pelas meninas, a Dri limpou ela e devolveu pro nosso colo, 1h depois da ligação a Laura chega. Ficou parada na porta do elevador, olhando pra parede, chamaram pelo Gustavo pra ir pegar ela, ela veio no colo, não falou uma palavra. Eu estava com a Celina no colo e ela entrou no quarto com os olhos marejados, ainda sem palavras, só olhava… tentei filmar mas foi um fiasco.

Ela subiu na cama, deu um beijinho na cabeça da irmã e começou rir atoa. Falei que a Celina tinha trazido um presente, Gustavo pegou no armário, e ela não se aguentava de felicidade, era uma boneca da Draculaura, ficou toda encantada. Chamamos a Ana Paula e adivinhem só, Laura não quis cortar o cordão, então o papai cortou na frente dela, Ana colocou a balança no chão e pesou: 3.060kg, pedi pra Laura buscar uma roupinha pra colocar nela, a Camila ajudou a colocar, tiramos a foto da equipe e chamamos minha sogra pra conhecer a neta mais nova. Levantei e entrei no chuveiro pra tomar banho, tomei bronca da Camila porque não poderia levantar da cama sem avisar… rs. Entrei no chuveiro e  nem dava pra acreditar de tão maravilhoso que era tudo, tomei aquele banhão delicia e a com a ajuda da Camila me enxuguei e coloquei roupa. Ah, o grupo da família estava eufórico e todos queriam conhecer a Celina, vieram os tios, os primos, e os bisos da parte do Gustavo. Mais tarde meus avós, a Gabi, uma amiga querida que mora em Brasília mas estava em Campinas nesse final de semana (muita sorte) e quase no final do dia a minha mãe.

Levantei e tomei café da manhã, a Camila e Adriana trocaram o lençol da minha cama e deitei de novo num lençol limpinho e cheiroso. Vou ser redundante e dizer que foi tudo maravilhoso, vocês não tem ideia de como é bom parir em casa. As parteiras arrumaram as coisas, a casa estava em perfeito estado, parecia que nada tinha acontecido.

Quatro dias depois a Ana Paula voltou pra fazer as avaliações e medir: 49cm (igual a Laura) e foi só nesse dia que Celina tomou banho pela primeira vez e de chuveiro, com ajuda da doula amada.

E claro, não poderia terminar esse relato sem dizer: tenham seus filhos em casa (se for gestante de risco habitual, claro). É tão incrível que chega ser indescritível, só quem passa por essa experiência tem ideia da dimensão que é tudo isso. Não quer ter em casa? Tenha no hospital, mas contrate uma equipe que te respeite, e sim, dá pra negociar, fazer permuta, eu fiz e deu certo. Economize em tudo, menos no parto, só se nasce uma vez.  Enxoval? acredite que muita coisa que falam pra comprar você não vai usar, seu filho não precisa de coisas personalizadas, de carrinho de mil reais, de um quartinho montadinho onde ele não vai ficar. Seu filho precisa chegar nesse mundo com amor, por que isso, senhoras e senhores, não tem volta.. todo o resto a gente consegue correr atrás depois.

 

Meu agradecimento especial a essa equipe maravilhosa que agora faz parte da nossa história.
Adriana e Camila, vocês acreditaram em mim desde o primeiro encontro, gratidão por serem tão iluminadas.

Gi, aaah, Gi o que falar de você? Sempre digo que é a calmaria no caos, você é luz e sabe disso. Gratidão por estar com a gente em mais essa aventura e ser tão generosa.

Kelly, que coração enorme e que pessoa linda. Obrigada por aceitar fotografar nossa família e alegrar esse dia com seu bom humor.

Ana Paula, obrigada pela tranquilidade que transmite.

Marido, ai marido, sem palavras pra você. Minha admiração por você só aumenta, gratidão por escolher passar por tudo isso junto comigo por inteiro, você foi e é um pai maravilhoso.

Ah, e uma foto minha tomando café pra vocês verem como eu estava maravilhosa e um trechinho de outra música que estava na nossa playlist e tem tudo a ver com a ocasião.

“Não é sobre chegar no topo do mundo
E saber que venceu
É sobre escalar e sentir
Que o caminho te fortaleceu”

 

#Artigo: O dia do lanche

29 dias pós parto. Acorda. Acorda? Levanta da cama. Acorda a mais velha, “bom dia dona do lanche”. Volta pro quarto, tira o pijama. Xixi… esqueci de fazer xixi. “Laura, não esquece de fazer xixi”. Fiz. Coloquei a roupa. Troquei a fralda da mais nova. 

Coloquei os pastéis pra fritar na airfryer, quatro por vez, são 32. “Laura, levanta, coloca a roupa”.

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Primeira leva de pastéis fritos, tira da panela, queima a mão. “Laura, coloca a roupa”. Mais uma leva de pastéis indo pra panela. “Mãe, posso ajudar?”. Pequena chorou, pega no colo. Volta pra cozinha, “cadê a tampa do pote? A tampa, cadê ela?”. “Laura, primeiro põe a roupa, depois ajuda”.

“Mãe, tô com dor na barriga”. “É fome, come”. Mais pastéis. Pausa pro mamá, mamou, arrotou, carrinho. “Laura, coloca o tênis”. Chorou, balança o carrinho. “Mãe tô com dor na barriga”. “É fome, quer uma banana?”. “Banana quente com mel e canela”. Coloca a roupa na máquina pra lavar. Chorou. Pega bebê no colo, corta a banana, esquenta. “Laura põe o tênis, banana ta na mesa”. “Tá difícil, não consigo”. Outra leva de pastéis. “Não consigo te ajudar agora, to com a Celina no colo”. “Mãe, ta difícil”. “Vai só de meia então”. Chorou, a mais velha, chorou. Tira os pastéis da panela, coloca mais. “Laura come a banana”. “Mas mãe, tá difícil o tênis”. Pega o suco, a fruta, põe na sacola. “Laura são oito horas, sabe o que isso significa? que sua turma toda ta na sala de aula e você ta aqui comendo banana”. Bebê chora. Põe pra mamar, mamou. “Laura, vamos”. Coloca mais uma leva de pastéis pra fritar. Celina no carrinho, suco e fruta na sacola. Celina chora. “Laura chama o elevador”. Pega a mochila, a sacola, empurra o carrinho. Bebê para de chorar, chega no carro, guarda a sacola, pega o bebê, coloca no carro, fecha o carrinho. “Laura sobe na cadeirinha”. Bebê chora. Fecha o carrinho, abre o porta mala, guarda. Bebê segue chorando. Entra no carro. Bebê chora. Carro anda, bebê para de chorar. Carro para, bebê chora. Andamos por 2 minutos. Bebê dormiu. Chega na escola. “Laura desce do carro e corre pra sala, boa aula, tchau”. Abre o porta mala, abre o carrinho, coloca o bebê no carrinho. Pega a sacola com a fruta e o suco. Leva na cantina. Volta pro carro. Coloca bebê no carro, fecha o carrinho, guarda no porta-malas. Chega em casa, estende a roupa no varal, bebê dorme. Tira pastel da panela, coloca mais. Passa um café, manteiga no pão, pão na frigideira. Pipoca! Ela quer pipoca! Pega a panela, frita a pipoca, café coado, toma um gole ainda em pé. Pega o pão, mais café. Pastel, não acabou, não esquece de colocar. Bebê chora, quer mamar, mamou. Colo. Pastéis fritos, todos eles, o pote não fecha, plástico filme nele, com uma mão só. Uma mão é para o bebê e a outra é pra fazer todo o resto. Pote fechado, pipoca pronta. Bebê no carrinho, pipoca e pastel no carrinho. Vamos pro carro. Bebê dorme. Vai pra escola, leva o resto do lanche, entrega pra filha mais velha. São 9h20, e esse é apenas mais um dia na vida de uma mãe. 

Vai um pastelzinho aí?

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A chegada da Celina // Relato de parto domiciliar parte II

Segundo filho vem pra provar que a gente não sabe nada mesmo, como eu disse, não me imaginava chegando nas 40 semanas, muito menos que ficaria dias em pródromos. Bom, mencionei toda minha alimentação na primeira parte do relato, não foi a toa, acontece que quando cheguei em casa, depois da comilança, tive diarreia, o parto da Laura tinha começado assim também.  Mas, estamos falando de segundo filho… e bom, eles pregam peças na gente, então, nos pródromos eu também tive diarreia, ou seja, nada de novo no front.

Deitei do “lado da cama do marido” que fica mais próximo do banheiro, dormi e acordei mais ou menos a 1h da manhã com contração, tentei ignorar, diarreia de novo, sentei na privada e fiquei um tempo, as contrações vinham. Pedi pro Gustavo começar a marcar, entrei no chuveiro.Exibindo IMG_5812.PNG

Eu conseguia dizer “mais uma” e “parou” a cada contração, não sei quanto tempo fiquei lá, só sei que as contrações não paravam, eu estava com calor e cansada de ficar de pé. Sai e deitei ainda meio molhada na cama, lembro de falar pro Gustavo “dói muito, não me deixa desistir”. Eu queria descansar, meu maior medo era ser vencida pelo cansaço. Aliás, passei as últimas semanas de gravidez toda descansando, tanto que não aguentava mais descansar… rs. E deve ser por isso que a Celina quis vir depois que a mamãe ficasse a tarde toda batendo perna, vai entender.
Pois bem, eu queria descansar e deitei novamente, ainda sentindo contrações,  pedi pro Gustavo continuar marcando,   depois resolvi ignorar e tentei cochilar. Até que voltei pra privada, já não me lembro se era necessidade fisiológica, acontece que era gostoso ficar sentada lá… eu apoiava minha cabeça na pia e conseguia relaxar. Lembro de vir uma contração bem dolorida e eu pedi pro Gustavo ligar pra Gi. Ele, cauteloso por causa da noite passada, perguntou se não era melhor eu ir pro chuveiro. Fui. No chuveiro,  chorei porque não aguentava mais a expectativa, chorei pela dor, chorei de medo de não conseguir, na verdade foi mais um choro de “não acredito que vou ficar mais uma noite nessa”.

Gustavo perguntou se eu conseguia continuar marcando – ele estava realmente com medo de ser alarme falso de novo… rs. Eu só balancei a cabeça dizendo que não. Ele ainda não tinha ligado pra Gi, lembro dele dizendo “qual número é? tem dois aqui” no meio de uma contração e eu ficando “pê” da vida com ele… “bem, é pra ligar mesmo?” aí vocês sabem como é a gente com dor, né? Mandei logo “eu já falei pra ligar caramba”. Ligou. Eu sai do chuveiro, – não mencionei, mas nosso box é bem apertadinho e ficar ali com a água quente nas costas parecia uma sauna -, eu tava com calor, queria sair, mas a água aliviava, então eu desligava o chuveiro e abria a porta do box quando parava a contração. Fiz algumas vezes isso até que quis sair. Fui pro outro banheiro que tem o box um pouco maior, foi aí que comecei a vocalizar instintivamente, a contração vinha e eu vocalizava “AAAAAAA”, com as pernas entreabertas, as mãos apoiadas na parede e a cabeça nas mãos…

Já passava das 3h da manhã, Gustavo disse que a Gisele estava a caminho e eu pedi pra ele ligar pra Dri (parteira), e ele já tinha ligado (ganhou pontos nessa hora… rs). Enquanto elas não vinham eu ficava naquela de ligar o chuveiro na contração, desligar quando parava. Fiquei um tempo nessa, sai do chuveiro de novo e dessa vez intercalava a privada com apoio no Gustavo.  – Pausa pra elogiar o marido…. Ah, o Gustavo, ele foi maravilhoso, um verdadeiro “doulo”, cuidou da casa, me dava água, me dava apoio físico, me fazia carinho, nada como ser amada quando se está com dor, as coisas se tornam mais fáceis.- Voltando pro relato.

Não me lembro bem a ordem das coisas, mas entre ir pro chuveiro e ficar na privada também quis ir pra cama, fiz um apoio com um monte de travesseiro e fiquei umas duas contrações lá… Voltei pro chuveiro.

Bom, eu ainda estava encanada de ficar muito cansada, falei pro Gustavo que ia deitar, as dores estavam fortes, mas suportáveis. Deitei e em seguidas ouvimos barulho de rodinhas no hall (deixamos uma lista na portaria para liberar a equipe sem interfonar), enquanto Gustavo foi abrir a porta, uma contração, me acocorei na beirada da cama e vocalizei, a Gi chegou, segurou minha mão, a contração passou, nos abraçamos. A Dri chegou junto com a Gisele, e assim que passou a contração ela apareceu com o sonar para auscultar a Celina, colocou lá em baixo, quase no púbis e eu disse “caramba, ela já tá aí?!” a Dri disse que sim, mas que tentaria auscultar em outro lugar porque as vezes dá pra ouvir mesmo quando o bebê não está posicionado onde está o sonar. Para a minha surpresa ela estava bem baixinha mesmo! Uma contração… pera, a Gi estava atrás de mim, joguei o peso do meu corpo nela… passou. E a Dri nos disse “é isso aí, ela tá chegando, pode colocar a playlist que ela nasce hoje”.

Gustavo foi mais do que rápido colocar as músicas para tocar, a Gi perguntou se tínhamos avisado a Kelly (fotógrafa), disse que não e ela pediu pro Gustavo ligar.  Eu sentei na privada, a Gi me trouxe água, conversamos alguma coisa e eu falei que ia pro chuveiro, ela comentou que achava que seria bom se eu fosse. Fui. Fiquei um pouco de pé, molhei o cabelo, olhei pro vidro de condicionador e resolvi que tinha que passar pro cabelo não ficar arrepiado… Ainda pensei “tenho que ser rápida, tem que ser antes de vir a contração”.

Ouvi um barulho parecendo aspirador, perguntei pro Gustavo o que era e ele me disse que era a Dri enchendo a piscina. Ainda no chuveiro pedi a bola, não tinha bola. Gustavo me trouxe a banqueta da cozinha, tentei ficar nela e  percebi que estava tapando o ralo (e se continuasse lá alagaria o banheiro), pedi pro Gustavo tirar de lá e me trazer a outra que tem as pernas diferentes. Fiquei um pouco lá, apareceu uma bola, sentei e achei horrível.

Daqui a pouco aparece a Dri e me pergunta se pode fazer o toque, eu permiti (tínhamos combinado que faria se fosse necessário, e no meu caso precisávamos avisar a pediatra.) O tempo todo que eu estive no chuveiro a Gi tentava me dar a mão, eu é que não queria pegar, tentou me fazer comer um chocolate, não quis. Lembro do Gustavo olhando por cima do box, perguntou se eu estava gostando das músicas… Eu disse que não estava ouvindo. A Dri apareceu na porta e perguntei se faltava muito e ela disse: “você quer saber qt deu o toque?” respondi que queria saber se faltava muito e ela respondeu “não, não falta. Essa informação é suficiente?” Disse que sim.

Quis sair do chuveiro, pedi pro Gustavo pegar uma toalha limpa  e ele pegou uma da Laura, tomou bronca… rs. Sentei na privada, a Dri veio  auscultar a Celina.  Gustavo tava acocorado na minha frente, me dava a mão quando vinha uma contração, mas teve uma hora que do nada eu falei pra ele sair (?). Depois pedi pra ele me trazer o puff da Laura, peguei uma toalha de rosto no móvel do banheiro,  fomos pra sala, arrumei o puff de frente pro sofá (porque eu não sei), coloquei a toalha em cima e sentei. Aaaaah, que delicia. (Parenteses pra falar do puff, é maravilhoso, acho que deveria estar na lista de itens pro parto. Sentei e parece que encaixou direitinho, consegui relaxar, foi mágico). Quando estive lá que consegui curtir minha playlist, Gustavo sentou de um lado, a Gi de outro. Apoiei a cabeça no ombro dele e dei a mão pra Gi. Fechava os olhos e cochilava.

Alguém bateu na porta, eu seguia de olhos fechados, achei que fosse a Camila, a outra parteira. Era a Kelly, veio uma contração, eu apertei a mão da Gi, abri os olhos e vi a Kelly sentada na poltrona da minha frente. Falei um “oi” e segui na minha vibe de relaxamento.

Eu estava muito consciente de tudo,  tanto que achei que ia demorar super, eu estava esperando entrar na partolândia, falar umas besteiras e tal… não rolou. Eu sentia bastante calor, a Gi colocou um paninho na minha testa, ainda no puff conversei algumas coisas, falei que era muito bom estar ali, comentei que estava amanhacendo e agora poderia fazer barulho… rs. Perguntei pra Gi pq estava demorando entre uma contração e  outra e ela me respondeu: “lembra do gráfico de parto? Você já passou do pico, agora vai ser assim”... Nem dava pra acreditar, era só isso? Eu já tinha dilatado tudo? Era só esperar o expulsivo? Que sonho! Doeu, claro que doeu, mas foi menos do que eu lembrava e esperava, foi incrível, no puff eu estava num estado de relaxamento tão profundo que poderia passar dias ali sendo amada…  rs

Numa contração lembro da mão da Kelly na minha perna, e são detalhes como este que faz a gente lembrar que ter apoio pode ser apenas um gesto, um toque que dê aquele gás pra continuar… Meia luz, música boa, carinho, começou tocar Alceu Valença, Anunciação e a Gi disse: “não é que vem numa manhã de domingo mesmo?”. Tudo estava perfeito, a Dri veio me lembrar que a piscina estava cheia, “pra hr que eu quisesse” eu, de novo, perguntei se ela tava chegando e a Gi disse que eu era a melhor pessoa pra dizer. Eu só queria ir pra piscina como “último recurso”, coloquei no plano de parto que seria perfeito se ela nascesse na água. E como diz a música do Alceu “eu já escuto teus sinais”, foi quando percebi que tava muito perto e decidi ir pra água. Entrei, senti falta de um apoio, olhei pro Gustavo e pedi pra ele entrar, ele bateu as mãos nos bolsos (precavido, lembram?) e entrou.

 

vou ter que continuar em outro post, vcs me desculpem, ou é isso, ou não publico nunca… rs

A chegada da Celina // Relato de parto domiciliar parte I

Eu gosto de contextualizar as situações (se você quer ir direto pro parto, espere o próximo post…rs), pois bem, o parto da Celina começou antes mesmo de me imaginar grávida novamente. Quando a Laura nasceu, há 5 anos, eu achava que estava no melhor dos mundos no que se refere a nascimento com respeito. Foi um parto incrível, mas um cenário caótico, o relato pode ser lido aqui. Na época eu me achava informada, mas como as coisas mudam, e informação nunca é demais e eu continuei lendo muito sobre parto, procedimentos necessários e desnecessários etc etc etc.

A Laura desde seus 2 anos pedia pra ter irmã/o, e nós esperamos o melhor momento para que isso acontecesse, Celina veio de uma gestação planejadíssima, foi muito desejada, principalmente pela irmã, que ficou emocionada quando contamos que a sementinha na barriga da mamãe era uma menina.

Fiz meu pré natal com a dra. Patricia Varanda, eu já a conhecia e foi maravilhoso ter o acompanhamento de uma pessoa querida nessa fase tão importante para nós. O parto domiciliar já estava nos planos, nos meus, o marido ainda não tinha verbalizado nada a respeito, mas, segundo ele, já sabia que seria essa opção. Primeiro por causa da experiência não tão satisfatória do primeiro parto (em relação a hotelaria do hospital), segundo porque eu queria que a Laura pudesse ser uma das primeiras a conhecer a irmã e viver aquele momento com intensidade (no hospital ela só poderia ir em horário de visitas e por 15 min).
Com 7 semanas enviei mensagem pra Gi (Gisele Leal), ela ainda não sabia, mas seria minha doula novamente. Com 12 semanas fomos viajar e eu mal me lembrava que estava grávida. Na volta, precisaríamos decidir qual seria a equipe que nos acompanharia nessa jornada, não que fosse uma necessidade real, eu é que precisava de uma equipe pra chamar de minha, só assim seguiria a gravidez com tranquilidade. E em Campinas o dilema é que temos  equipes muito boas, o difícil é decidir entre elas. O critério utilizado por mim, foi aquela que fez meu coração bater mais forte, pois todas são extremamente competentes, então esse não era um problema.

Ainda no primeiro trimestre, combinamos uma reunião com a Gi, ela nos perguntou o que mudaríamos do parto da Laura, eu disse que não queria que a bebê fosse tracionada (tirada antes de nascer completamente) – no parto da Laura eu pedi para que isso fosse feito. O Gustavo disse que teria se informado mais. Bom, voltando para a equipe, quando fomos conversar com as meninas do Arte de Nascer (Adriana e Camila), acho que estava com 19 semanas (é isso mesmo, meninas?). Saímos de lá maravilhados, Gustavo elogiou bastante a postura, mas deixou claro que a definição da escolha estava em minhas mãos. Elas sairiam de férias em Novembro, então além da minha presa, tinha meio que um prazo para garantir a data. As escolhi, ou melhor, fomos escolhidas. Porque acho que equipe é preciso ter uma ligação a mais e isso a gente tinha.

Com 20 e poucas semanas fizemos um curso de preparação para o parto, lá no Espaço Mulheres Empoderadas. Como eu chorei nesses dois dias de curso, foi um momento de entrega total a nossa segunda filha e de cumplicidade entre eu e meu parceiro. E foi nesse curso que tive pela primeira vez medo da dor do parto, uma dinâmica com gelo colocou a minha capacidade de parir na dúvida. Mas a Gi estava lá e o Gustavo também, então fui lembrada que sentir dor é diferente de sofrer.

O tempo foi passando e a barriga crescendo, bem como as dores devido ao peso dela, é aqui que entra uma pessoa “chave” para o preparo do meu corpo pro parto, a fisio Graciele. Com 32 semanas fiz uma consulta, ela me ensinou a massagem no períneo e também a usar o epi-no (aparelho alemão que simula o expulsivo), com 35 voltei lá com o Gustavo e ela ensinou como ele poderia me ajudar no preparo do períneo. A Gi nos emprestou o epi-no e aqui conto uma coisa, é pior que parir de “verdade”, o aparelho pelo menos,  serviu para aproximar ainda mais do Gustavo, já que precisava dele pra usar.

O acompanhamento de pré-natal com as parteiras começaria a partir de 37 semanas, então,  um dia antes de completar as tão esperadas 37 fiz uma consulta com a Dri e ela me disse que Celina estava encaixada e “pronta” pra nascer, e como Laura nasceu de 39+2 ela não acreditava que eu chegasse até essa idade gestacional. Mas eu não tava ansiosa, muito pelo contrário, eu tava tranquila, curtindo o barrigão, além disso, queria que nascesse em março, pois uma semana antes da DPP era carnaval e eu não queria que nascesse nessa época. Mas psicológico é fogo, né? Foi a Dri dizer que estava pronta que comecei a achar que iria nascer a qualquer momento, até saiu uma “gosminha” na calcinha e eu anunciei pra todo mundo que era o tampão, até hoje não sei se era realmente.

A Dri me ligou para remarcar a consulta da semana 38, mas disse “se ela quiser pode nascer esse final  de semana (do dia 18/2) que tá tudo bem!” Eu ponderei: “Ela vai nascer em março, dia 3, igual a irmã”. Rimos, no sábado (18) a Gi também mandou “Estou indo pra formatura, mas qualquer coisa me liga que vou atender seu parto de longo” e eu também disse que ela poderia ficar tranquila que Celina só viria em março. Pois bem, eu disse que psicológico é fogo, eu que estava super apegada na barriga, comecei a não querer ser mais grávida. Isso aconteceu depois da pintura que eu fiz, também no Espaço Mulheres Empoderadas, no dia 19.

Eu já tinha aproveitado tudo o que podia de gravidez, e comecei a ficar “bodeada”, estava com muitas dores nas costas, no púbis e de saco cheio das pessoas perguntando “não vai nascer não?!” “e a Celina?!” (sim, não menti a DPP, mesmo dizendo que era pra março, no meio de fevereiro as pessoas já queriam ver um bebê). E foi aí que começaram os pródromos (falso trabalho de parto), chegava a madrugada eu sentia as contrações, amanhecia elas paravam. Cheguei a mandar mensagem pra Dri dizendo que nasceria “uma foliã” já que estava bem na semana carnavalesca. Nessa semana teve uma noite que as contrações estavam intensas, cheguei a acordar o marido e dizer que a Celina estava chegando. Mas ainda não era o momento e segui na expectativa.

Na gravidez da Laura eu não tive nada disso, quando comecei a sentir contração era ela pronta pra nascer. E ficar nesse “nasce-não-nasce” mata a gente, eu estava física e psicologicamente cansada. Cheguei nas 39 contrariando as expectativas de todos (até as minhas, por mais que eu quisesse que nascesse em março eu comecei a duvidar dessa possibilidade). Com 39+5 a Dri veio me avaliar, disse que eu estava ótima e a Celina boa pra nascer, perguntou se eu queria que viesse logo e eu disse que sim, então me receitou umas homeopatias para trabalhar o colo. Como “ajuda” nunca é demais, marquei acupuntura com a Gi (39+6), e foi muito gostoso, é muito bom estar com a doula da gente, a Gi me passa uma tranquilidade que eu não tenho, me explicou sobre acupuntura e deixou claro que não induz parto, que o bebê nasce quando está pronto pra nascer. Nesse dia também era o aniversário da Laura, então preferi “desconectar” um pouco da gravidez e focar minha atenção na filha mais velha, foi bem gostoso pra nós.

Na madrugada de sexta a coisa começou a pegar. contrações de 5 em 5, liguei pra Gi, ela me pediu pra ficar 65min no chuveiro. Antes de ir, acordei o Gustavo, pedi pra ele ir até a portaria levar a autorização de entrada da equipe, enquanto eu estava no chuveiro ele tratou de seguir o plano de parto e foi organizar a casa. Claro que eu não fiquei 65min no chuveiro, foram apenas 30min e duas contrações, a Gi perguntou se queria que ela viesse mesmo, eu disse que se a coisa pegasse de verdade eu avisaria.
No sábado (quando entrei nas 40 semanas) meus sogros e cunhados viriam pra cá (por causa do aniversário da Laura), e ela, logo pela manhã foi até a janela do quarto dela e gritou “Cegonha pode trazer minha irmã” . A tarde, fomos almoçar numa churrascaria, eu comi pouco, porque estava com medo de comer muita carne e dar “ruim” na hora do parto (a gente meio que sente as coisas, né?). A tarde sai com a sogra e a cunhada pra bater perna em uma loja que vende quase tudo…. rs, praticamente passamos a tarde dentro da loja e foi ótimo pra minha cabeça, distrai. A noite fomos comer num restaurante perto de casa, me entupi de fritura. Meus sogros tinha combinado de dormir em casa, mas o Gustavo pediu para que eles fossem pra um hotel e levasse a Laura. Nos despedimos, meu cunhado deu um beijo na minha barriga (ele nunca tinha feito isso) e falou “agora nasce”. Meus sogros foram com a Laura pro hotel e meus cunhados voltaram pra SP, e é aí que o parto começa.

40 semanas e um dia

Continua no próximo post….