Relato de parto pelo pai 3/3

E para encerrar  nossa trilogia, o fim que é o começo.

 

—-

 

Por acaso do destino, esse texto é o segundo e o terceiro de uma trilogia. O primeiro pode ser lido e entendido mesmo na ausência dos outros dois, mas se aproxima muito de uma mentira.  Esse é o segundo, porque aconteceu primeiro. E, ao mesmo tempo, o terceiro porque foi escrito por último.

Facilitando as coisas, é o seguinte. O primeiro não é uma farsa total, e você entenderá melhor o segundo se tiver lido o primeiro. O último, que talvez tenha começado a ser lido antes é outra história, que aconteceu depois dessa.

Enfim, depois de tantos números e enrolação vamos aos fatos. No começo contei que fui à casa de meus pais sem saber direito a razão. A verdade é que eu sei e foi dito naquele mesmo texto, era fuga. Minha primeira filha estava quase pronta, na barriga de sua mãe, e naquela época eu não sabia nada sobre parto, e evitei saber, porque era um jeito de eu tentar me enganar e evitar a mãe. Foi pior.

Depois mais a frente me refiro ao tempo de espera entre dois telefonemas usando algumas crenças e personagens mitológicos para dar dimensão da angústia, porém quem não me conhece pode criar uma imagem diferente de mim.

Já no carro criei toda uma cena de pressa porque era isso mesmo que estava acontecendo. Não tendo ciência dos planos de Patrícia para o nascimento de Laura não sabia o que significava ir à Maternidade, se tudo ia bem ou mal. E ocultei outra parte importante do meu despreparo, a doula Gisele no telefone me perguntou o que a gente tinha planejado para a maternidade, quarto e essas coisas. Eu não sabia responder, porque não tinha pensado em nada, para ser mais sincero ainda eu nem sabia que tinha que ter planejado isso e não conversei com a Patricia para saber se ela tinha planejado.

Na altura do texto que menciono a chegada ao quarto onde tudo já estava acontecendo, se tivesse usado mais detalhes talvez ficasse claro como eu parecia algum daqueles palermas que são os primeiros a morrer num filme de terror. Quando entrei no quarto, que era coletivo, se não me engano foi no meio de uma contração, a Patricia nua, a doula suportando ela. Se a minha memória não falha também o chão estava cheio de tampão e eu pensava “O que é isso? O que está acontecendo? Alguém está perdendo sangue!”. Para minha surpresa, por assim dizer, ela não estava deitada, e não tinha nenhum médico no quarto.

Outro fato que deixei de mencionar que durante a presença nesse primeiro quarto foi sugerido pela médica o rompimento artificial da bolsa e também foi mencionado um edema de colo. De fato, como mencionado no romance, eu fiquei bem calado mas o que se passava na minha cabeça era ‘Vai intervém, vai logo, por que está demorando tanto?’.  Eu não sei porque eu estava com tanta pressa se a Laura não estava.

Só para reforçar, quando eu leio de novo a conversa de anjo e céu eu até me emociono com as minhas palavras, mas esse perfil não tem nada a ver comigo. A sensação de impotência poderia até ser essa mesma, porém sem todo esse encanto.

Já me critiquei tanto por ter sido omisso naquele texto que agora vou me fazer um reconhecimento. Fui super honesto ao dizer que meu celular estava a vibrar no bolso da calça exatamente onde a mãe de minha filha, exausta, tentava se apoiar e relaxar durante o expulsivo. E daí essa honestidade se repetiu até o final. Chorei bastante mesmo.  Foi realmente emocionante ver a Laura nascer, pegar um bebê tão pequeno no colo… Eu pensava que eles já nasciam com o tamanho de uns 6 meses.

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