Relato de parto pelo pai 2/3

Foi num grupo virtual de gestantes que percebi a necessidade do pai também externalizar suas experiências de parto, infelizmente, a maioria das mulheres não tem o apoio necessário de seus companheiros para que sigam firmes nessa jornada que é a busca por um parto respeitoso. Eu passei pelas duas experiências, sem e com apoio  da mesma pessoa (olha que incrível). E foi assim que pedi para meu parceiro que escrevesse sua experiência de parto, ele prontamente atendeu e eis que segue uma trilogia de nossos dois partos. Mas vamos começar pelo fim, com o relato do parto da Celina.

 

Gustavo pai da Laura, 5 anos e da Celina de 40 dias.

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Faz tempo que não escrevo, e só decidi repetir o ato devido a um pedido de minha amada. Mais do que isso, ela tem um argumento bom.  O tal, é de que eu posso ajudar outros pais a terem o que me faltou na minha primeira experiência. E me ajudou muito na segunda.

Antes de começar a escrever, fui ver se tinha feito para a minha primeira cria, pois ela ajuda a entender alguns fatos da segunda, e muito mais importante do que isso, ela evita um futuro ciúme. Acontece que quem procura, acha. E li. E não concordei. O texto que encontrei é um romance e não um relato do que aconteceu. Tive vontade de editar, no entanto isso seria corrupção. Assim teremos então, um romance e dois relatos.
O romance já estava feito. E quando cheguei nesse parágrafo do texto fui fazer as correções necessárias para que ele se tornasse um relato. Para quem interessar.

Comecemos, então, o segundo relato pelos preparativos. Após 4 anos daquela primeira experiência, já como um casal, e maduro resolvemos trazer ao mundo mais um rebento. Muito embora eu tenha desconversado muitas vezes eu tinha certeza que a Patricia iria ter um parto domiciliar. Quisesse eu ou não, porque essa mulher, meus queridos, é osso duro de roer e não ia ser um paizinho desinformado que ia impedir que ela fizesse a sua maneira.

Assim só me restou aceitar. Não foi logo de cara, mas foi uma semente que ela plantou em mim e tratou de regar com bastante informação para que desse bons frutos.
Após oficialmente tomar a decisão pelo parto domiciliar ainda erramos um pouco nos processos de planejamento, no meu ponto de vista. Primeiro conhecemos possíveis equipes e depois frequentamos alguns grupos de discussão sobre parto. As mulheres tem um negócio que eu não sei explicar, elas dizem que escolhem a equipe no olhar, na afinidade e uns papos meio místicos que para mim são um mito. Por isso, eu acho que ter informação já é muito importante desde a escolha da equipe.

Apesar da desordem, sou muito feliz e agradecido a equipe que tivemos, acredito ter sido a escolha correta.

Nessas rodas e encontros que fomos que entendi muita coisa do que aconteceu no parto da Laura, de como fiquei totalmente tenso de forma desnecessária, como não tinha sido uma experiência inteiramente agradável e como eu poderia melhorar para essa próxima.
O tanto de informação baseada em evidências cientificas me deixaram muito mais tranquilo pela forma de parto que tínhamos escolhido. Para que, acima de tudo, a saúde das duas estivesse acima de qualquer outra coisa. Para que minha filha não passasse por procedimentos invasivos e desnecessários logo aos seus primeiros minutos de vida.

Desse fluxo de informação também me coube a seguinte reflexão. Nas escolas temos aulas de biologia e lá aprendemos o ciclo de vida do parasita da esquistossomose, aprendemos como cada planta se reproduz. Mas não aprendemos como nós deveríamos vir ao mundo. Eu imagino que seja porque preferimos deixar tudo e cargo dos médicos, porque temos medo de ser natureza.

O que eu quero dizer com isso é, procure se informar.

Algumas pessoas assistem muitos vídeos de partos para se preparar e se familiarizar. No meu caso, eu evitei. Primeiro porque eu sei que esses vídeos são todos editados, só duram 5 minutos e só tem imagens lindas. Segundo porque eu não queria projetar nada para a nosso parto, não queria criar nenhuma expectativa sobre algo que não se tem controle. Além disso, é um momento que é construído a partir das sensações da mulher e nós a seguimos.

Como eu disse, não temos controle sobre esse momento e por isso a cartilha manda que se tenha planos reserva para um parto domiciliar. Nós tínhamos.
Tínhamos também o plano A, escrito por minha esposa, que eu tratei de decorar para ser o que elas precisassem de mim.

Tivemos algumas noites de pródromos que tiraram o sono e renderam situação inusitada. Depois da primeira noite que aconteceu quando eu ouvia alguma coisa da Patricia eu já ficava meio dormindo e meio acordado, até esperar ela avisar que eram só pródromos novamente para eu dormir oficialmente.

E na noite certa, quando Celina estava finalmente pronta pensei que eram pródromos novamente. Após mais ou menos uma hora, eu meio lá meio cá, ela teve que me sacudir e pedir para eu começar a cronometrar as contrações, enquanto ela estava no chuveiro. Eu estava tão atento em marcar o tempo certo e me manter acordado que nem reparei a dor que ela sentia.

Eu fazia contas e as contas não batiam, e eu pensava ‘são pródromos de novo’. E vinha mais uma contração e ela conseguia anunciar a chegada e a hora que partia. Depois de muito calor no chuveiro ela decidiu sair e deitou-se na cama novamente. Eu lhe contei o resultado do cronometro e ela disse ‘então dorme’. E mal fechei os olhos ela confessou que estava muito cansada devido a esses alarmes falsos e que quando chegasse a hora não ia ter energia para ir até o final, pediu que eu não a abandonasse.

Isso ocorreu no tempo suficiente para que as contrações voltassem, ela disse que era muita dor, que precisava de ajuda, que era para eu ligar para a doula. Eu hesitei, porque não era em mim que doía, foi necessário um grito dela para que eu finalmente ligasse.
No telefone eu dizia os resultados da cronometragem, que achava que não era e a doula dizia ‘ótimo’, ela ouvia a Pathy do fundo externalizando a sua dor e dizia ‘ótimo’, para ela estava tudo ótimo, hahaha. Liguei também para a parteira.

Enquanto elas não chegavam, eu fui preparar a casa conforme as orientações que tinham me sido dadas. Desliguei todos os relógios da casa. Recolhi qualquer roupa que estivesse jogada, preparei o escritório para a montagem de uma piscina inflável e levei muita água para ela.

Para preparar a casa o planejamento também poderia ter sido mais eficiente. Com a banheira no escritório mal sobrava espaço para a parteira e seus equipamentos.

Quando elas chegaram foi no meio de uma contração e a doula já chegou servindo de apoio. A parteira em alguns minutos já preparou seu equipamento e ouviu o coração de Celina batendo, com algum caminho já percorrido.

Elas trocaram de banheiro e eu coloquei uma mangueira no chuveiro da suíte para enchermos a banheira.

Ela decidiu ficar um tempo nesse banheiro entre chuveiro e sentada no vaso, eu e a doula ajudávamos como podíamos e as conversas eram sempre no volume 0. Como eu tinha colocado para tocar as músicas que ela colocou em seu plano de parto, entre uma contração e outra eu perguntava se ela conseguia ouvir a música, acho que fiquei sem resposta em todas tentativas.

Os profissionais do parto humanizado costumam brincar que em certo momento as mulheres vão parar na ‘partolândia’ e nós devemos estar preparados para enfrentar certas atitudes sem guardar rancor. Eu estava esperando por isso. Acho que era a referência que eu tinha para saber a evolução do parto. E não consegui notar nenhum momento assim.
Mas não tinha pressa, estava calmo e curtindo o momento. Fui notar a evolução quando já sentados no puff da sala prestes a entrar no expulsivo e a doula comentou sobre os picos de dor. Muito embora elas já tivessem dado muitos outros sinais do caminho que já tínhamos percorrido, eu é que estava muito tranquilo para notar. Aí eu pensava, ‘Caramba! A fase ativa já foi! Do que eu tinha medo?”

E então, meu bem, resolveu que era a hora de ir para a banheira, e eu confesso que pensei, “Ok. Agora é com você. Não posso mais te ajudar”. E enquanto eu terminava de pensar isso ela me pediu para que entrasse com ela. E ficamos lá, variando posições, ela vencendo contração a contração enquanto nós ajudávamos como podíamos. A parteira ouvia o coração e tudo indicava que era só esperar.

Como no parto da Laura a bolsa teve que ser rompida artificialmente eu achava que a Celina fosse nascer de bolsa e tudo. Me enganei, a bolsa estourou faltando umas 3 contrações para que saísse a cabecinha, que ficou lá recebendo um carinho até a contração final e recebermos a nossa segunda menina.

Mais uma para encher meu coração. Chorei para ela também. A cada aniversário que nossas filhas fazem a gente fica mais chorão.

No parto da Laura eu nem lembrava como tinha sido com a placenta. Eu acho que vi a placenta apenas por acaso. Dessa vez eu sabia que era importante que ela saísse. E quando esse momento chegou foi a hora que consegui expressar para Patricia como foi bom que tudo isso tem ocorrido em casa. Como é bom poder estar em casa para relaxar e curtir as meninas após uma maratona dessas.

 

 

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