Relato de parto pelo pai 1/3

 Algumas famílias surgem a partir de um casal que planejam ou não um filho, a nossa, nem éramos um casal e muito menos planejava filhos. Mas a vida, o universo, Deus ou seja ela quem for quisesse que a nossa família surgisse a partir de um bebê, a Laura veio para  nos unir e mostrar que o amor se constrói e é por isso que esse relato é um romance, como diz o Gustavo.
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Durante as férias de inverno de 2009, cansado da mesmice e das mágoas da minha solidão resolvi criar este blog contando as histórias que não vivi. Só hoje, dirigindo da casa da Laura para a minha, com os olhos em lágrimas, me dei conta que fiz algo para ser escrito.

Era 2 de março, sexta-feira, quando eu saí exausto de uma aula às onze horas da noite, depois de ter trabalhado a semana toda, atrás de uma carona com um amigo meu para São Paulo. Não sei dizer se eu estava perdido ou fugindo, mas fui.

Tarde cheguei, caí no sofá e por lá fiquei. Se minha memória não falha, por volta das quatro horas da matina acordei com meu celular. Fiquei bravo comigo mesmo, por ter esquecido de desligar a função despertador. Pelo menos foi o que eu pensei, porém quando o peguei, uma ligação de número desconhecido de Campinas. Aquele frio na barriga, ou na espinha. Ou em tudo.

Quem ligou foi Gleise, doula de Patrícia. Talvez fosse trabalho de parto, embora pudesse descansar, aliás devia descansar, e quando chegasse a hora ela ligaria de novo. “Descansar? Como? Minha filha está para nascer, sem mandar telegrama com aviso prévio, com data, com hora, tamanho e peso, garantindo que estaria saudável.”

Nas minhas contas o criador já tinha feito tudo, céu, terra, luz, fogo, animais, Eva e Adão e se preparava para descansar na hora do segundo telefonema. O celular contrariou dizendo que só tinham passado três horas. Era hora de cair na estrada, em breve se encaminhariam à maternidade, não sem antes avisar.

Eu recém habilitado, sem experiência de estrada pedi o socorro ao meu pai, que já estava meio esperto com as ligações em horários alternativos. Não sei se ele, eu ou os dois não notamos o ponto que a carruagem já estava e, por isso, o aviso de atualização de destino para a maternidade chegou antes que saíssemos da avenida principal do bairro.

Naquele momento farol vermelho, limite de velocidade, contra-mão e essas coisas que chamam de leis de trânsito deixaram de existir. Na rodovia, meu pai, a cada ultrapassagem ou manobra imprudente lembrava de se preocupar com minha educação de trânsito e me dizer que aquilo só fazia quem tinha muita experiência. Eu nem sei se notava.

Chegar na maternidade foi algo estranho, logo me explico. Enquanto meu pai procurava onde deixar o carro, eu com um sorriso que nunca tive disse à recepcionista:

-Moça, minha filha está nascendo. – Como se ela fosse a única bebê a nascer na maternidade.

Comecei seguindo as placas, depois deixei que meus ouvidos me guiassem até os berros.

Era assim, que de repente eu estava entrando no quarto durante o trabalho de parto da minha filha. Desde antes da decisão pelo parto humanizado (aceitação acho que cabe melhor), já dizia com toda convicção que eu não entraria na sala, não seria forte suficiente.

E eu estava lá, desinformado, despreparado, calado, tentando fazer o que não sabia para ajudar a mãe da minha filha. As doulas se esforçavam para acalmar Pathy, sua mãe e eu. E ainda superar as barreiras que a infraestrutura da maternidade impunha.

Entre algumas caminhadas, chuveiradas, massagens e contrações da Patrícia, a outra doula, Gisele, me aconselhou a conversar com a Pathy, que eu ajudaria no parto. “Como posso eu ir ao céu e trazer cá um anjo”, foi o que pensei.

Finalmente entramos na sala de parto. Eu estava pronto… para correr o mais longe que eu pudesse, porém eu já via uma imagem de Laura, até a escutava e sentia seus bracinhos gordinhos se agarrarem aos meus pés.

Após algumas posições, carinhos, apoio, foi necessário desistir daquela sala. Fomos a outro quarto, onde uma banheira de plástico, improvisada e emprestada, tampando a saída do ralo, iria ajudar aliviar a dor.

No caminho eu me culpava, se tivesse pedido por um anjo com asas menores ele já teria conseguido pousar neste mundo. Se eu tinha achado que três horas tinham demorado a passar até um telefonema suponha se eu estava contando agora a minha quarta ou quinta vida.

Certo momento sobramos eu, perdido, e Pathy, informada, preparada e cansada. Não senti falta de ninguém além da minha nenê que se prolongava no suspense.

Quando tudo parecia melhor e se encaminhar bem, senti meu celular vibrando no bolso da calça, onde a Patrícia apoiava a cabeça no meu colo. Quis me matar. Talvez ela tenha me olhado com os olhos de “te perdoo”, talvez tenha sido coisa da minha cabeça.

Enfim a Patrícia sentiu algo além da dor. Eu quis levantar, correr em meio aquele lago de água e líquido amniótico que virou o andar da maternidade e trazer alguém que soubesse o que era. Ainda bem que não foi preciso, logo apareceu alguém.

Que coisiquinha mais linda! Sério! Que coisiquinha mais linda! Do fundo veio uma voz, 14:54. Do dia 03/03/2012. Foi a primeira vez que ela me fez chorar. A segunda, eu deixava sua casa para trás, e sentia muita vontade de abraçar toda a equipe e família que ajudou buscarmos esse anjo lá no céu para trazer muita luz. A terceira, e última até agora, mencionei o lugar, no começo do texto. O motivo, não sei se fui eu que ouvi, ou ela que falou. “Papai”.

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