A chegada da Celina // Relato de parto domiciliar parte III

Bom, já falei do quanto o marido foi maravilhoso em todo o trabalho de parto, né? Mas nunca na vida, nem nos meus melhores planos eu imaginava que ele entraria na piscina comigo e participasse tão ativamente do parto, então, antes de continuar o relato, eu gostaria de abrir um parenteses enorme para falar da importância da informação. Informação é poder. Quem leu a primeira parte do relato vai lembrar que na consulta com a Gisele, o Gustavo disse que queria ter se informado mais para o parto da Laura. O que ele não teve de informação lá atrás, ele teve agora. E eu, mesmo achando que sabia o suficiente, participei com ele das rodas e o curso de preparação para o parto foi um divisor de águas pra nós. Ele sabia exatamente o que fazer e o que esperar de cada “fase” do parto e isso com certeza contribuiu para que tenha sido tão maravilhoso como foi.

Mas eu sei que vocês querem relato, então sigamos…

Deixa eu voltar um pouquinho porque lembrei de uma coisa. Ainda no Puff, a Dri me perguntou se eu gostaria que trouxesse a Laura, ela tinha ido pra um hotel com meus sogros e era relativamente perto de casa. Não quis, não sei porquê, mas tava tudo muito bom do jeito que tava e eu preferi deixar ela quietinha lá e eu quietinha aqui.

(para melhor experiência de leitura recomendo dar play nessa música que embalou nosso trabalho de parto)

Quando fomos para a piscina, que estava em um dos quartos, o dia ainda não tinha clareado, a nossa manhã de domingo foi chegando aos poucos e tornando cada segundo mágico. Gustavo entrou na piscina, me apoiei nele e comentei que era bem gostoso estar na água. E a Gi perguntou qual era melhor, o puff ou a piscina e eu respondi “o puff na piscina”. Eu seguia com calor e prendi o cabelo, tinha deixado um lacinho no braço pra fazer isso (lembram que eu estava consciente de tudo? Pois é!). Encostei no Gustavo, fechei os olhos e relaxei… Já estava claro quando vi a Ana Paula (neonato) passando na porta e me dizendo “oi”, pouco depois a Camila (parteira), não sei se nessa ordem.

Se você está acostumando a ler relato de parto deve estar esperando a hora que a dor muda, pois então, foi na piscina que o expulsivo chegou de verdade, veio aquela vontade de fazer força e o “urro” que fica bem no meio da garganta se libertou. Apesar de eu estar muito consciente de tudo, também estava muito conectada com meu corpo, a vida acontecia nos outros cômodos da casa, mas pra mim, o mundo todo era meu corpo trabalhando pra trazer Celina à luz.

A contração vinha, eu me posicionava da melhor maneira e liberava meu lado selvagem. O urro era gutural, instintivo. Já era dia e se alguma coisa estava me travando, era o “medo” dos vizinhos tocarem na porta, agora não podiam mais, quer dizer, podiam, mas eu também podia “fazer barulho”. Então me libertei, relaxei (sim, dá pra relaxar mesmo no expulsivo) e é realmente impressionante como parece que “nada” está acontecendo, eu conversava, toda hora perguntava se tava perto, se ela tava chegando. Foi quando a Gi disse que eu podia me tocar pra saber (gente, como nunca pensei nisso? Claro que podia me tocar! Meu corpo, meu bebê, como não pensei nisso antes? Pois é!). Me tocava e não sentia nada, ainda perguntei o que eu deveria sentir, a Gi botou o dedo no meu joelho e disse “osso, você tem que sentir um duro assim“, fui tentar de novo, só sentia coisas moles, era o tampão mucoso, aquele mesmo que eu achei que estava saindo dias antes do parto e não estava, ele tava ali e eu o tocava e puxava as partes que estavam soltas.

A ordem dos acontecimentos não está muito precisa, mas acho que isso também não é relevante nesse momento… Eu sei que me mexia pra caramba, procurava posição. As meninas vinham com a mangueira de água quente na minha lombar pra aliviar a dor (a mangueira foi ligada no banheiro do meu quarto, aquele mesmo que eu falei que era apertadinho e como nosso chuveiro é a gás, a água esquentava que era uma beleza).  Vinham com água pra eu beber e suco de uva (que era a única coisa além de água que descia). Teve uma hora que eu fiquei de joelhos, dei a mão pro Gustavo e comecei a duvidar, internamente, da minha capacidade (ao contrário do parto da Laura, não verbalizei em nenhum momento que não iria conseguir), mas ao mesmo tempo me veio a mente todas as mulheres que já pariram (e eu mesminha já tinha passado por isso), e coincidentemente a música que tocava era da Nina Simone, Ain’T Got No (leia a partir daqui ouvindo essa maravilha)

 

Vocês tem ideia da força dessa canção? Eu já amava e agora ela tem um significado especial, eu ganhei força e algo mais que jamais serei capaz de descrever. Quem passou pela experiência vai saber do que eu estou falando. Caramba, eu estava na minha casa, com meu marido, amor da minha vida e prestes a conhecer nossa segunda menina, não passava mais pela minha cabeça a fraqueza e fui tocada por uma tranquilidade que agora era visível, eu passava a mão na barriga, Gustavo tambem, a Dri vinha auscultar a Celina e como eu disse antes, fora da contração é dor zero. A natureza estava presente em mim e vinha com força, já na parte “final” do expulsivo eu fiquei de costas pro Gustavo, ele com o potinho de sorvete me jogava água nas costas, a Gi sentou (ou jé estava sentada?) na frente da piscina, me deu as mãos e quando a contração vinha eu apoiava a cabeça na borda da piscina, apertava as mãos dela e urrava. Me lembro de chamar pela Celina “Vem filha, vem Celina”. A Gi saiu pra pegar alguma coisa, a contração veio e ainda bem que a Dri estava na minha frente, uma das  mãos dela segurava o sonar e a outra eu esmagava com as minhas duas mãos, contração passou e a Dri fez a ausculta de novo.

A Gi voltou, me deu as mãos e eu seguia com meus urros e ainda me tocava pra tentar sentir alguma coisa (todas as tentativas foram sem sucesso, só sentia coisas moles… rs) a Dri se enfiou num cantinho que só cabia ela, que é pequenininha… Em algum momento eu reclamei que tava com dor nas costas e tentei ficar de cócoras, a Gi me aparece com um pano (rebozo) e pede pra eu segurar, já que era difícil me manter na posição. A Dri orientou o Gustavo a ficar atrás de mim pra dar um apoio, e a força  parecia que estava cada vez mais forte, eu pedi ajuda “o que eu faço? Me ajuda!!” A Gi dizia que eu estava indo bem, que era isso mesmo, coloquei a mão por baixo e ploft senti a bolsa estourando e anunciei “estourou a bolsa” alguém falou “ótimo” e na próxima contração já era a cabecinha dela… que mistura doida de sentimentos, não sabia se chorava, se ria, eu estava aliviada com certeza, coloquei a mão pra tocar nela e comentei que era cabeluda, Gustavo também fez um cafuné na cabecinha dela. Me lembrei da Graciela, a fisioterapeuta de períneo, em vários momentos, e por isso, só fazia força quando vinha a contração e lembrava o tempo todo de respirar fundo.

A Camila (outra parteira) apareceu do nada na minha frente e me ajudou a amparar a Celina, eu tinha escrito no relato que queria ser a primeira a pegar, mas depois que saiu a cabeça eu fiquei meio sem reação e a Camila me lembrou “Vai, segura sua filha” e com a ajuda dela, Celina nasceu, as 7h01 do dia 05/03/2017. Imediatamente levei ela pra perto do meu peito, falei, ainda chorando, que ela não precisava chorar, que a mamãe e o papai estavam ali e desejei boas vindas.

A Dri pediu pra subir ela um pouco pra não engolir água, mas o cordão era pequeno e não dava… rs. Acabou, a dor sumiu e dava lugar para um monte de sorriso frouxo, o amor transbordava no ambiente, ficamos namorando nossa garotinha até a água ficar quase fria, ela, toda exibida passava as mãos no rosto por causa da luz, bocejava e  mostrou a língua, a tranquilidade de um bebê que nem sabia que tinha nascido… a Ana Paula ainda comentou “peixes com ascendente em peixes, pode deixar ela nessa água aí”. As meninas forraram minha cama com os lençóis descartáveis e eu sai da água para dequitar a placenta, a Celina fez um cocô na mão da mamãe…rs  Ainda grudadinha no cordão, deu até um certo trabalho pra sair da piscina, Ana Paula me ajudou a segurar a bebê, alguém segurou um tapetinho descartável  pra não ir pingando sangue pela casa… rs

Na minha cama, com minha menina no colo (bem possessiva, pq é bom demais estar na casa da gente), esperando a saída da placenta, que já estava ali na portinha, esperando só uma força pra se desligar totalmente. O parto terminou oficialmente por volta das 7h20, Gustavo ligou pra mãe dele “Mãe, traz a Laura pra conhecer a irmã… Ah, traz café da manhã pra equipe, está todo mundo com fome”. Queríamos que ela cortasse o cordão, ela expressou essa vontade algumas vezes durante a gravidez, A Gi veio me perguntar se eu queria comer alguma coisa, falei que tinha pão de queijo no congelador, que ela poderia assar, ela passou um café… Ah, cheiro de café com cheiro de vérnix, está na minha lista de melhores sensações do mundo.

Gustavo foi tomar banho, Celina estava tentando entender o que era o peito, dava umas lambidinhas e só depois mamou. A Camila avaliou o períneo e estava íntegro, e claro que isso é motivo de comemoração,  não fiz os exercícios e o epi-no atoa! Gustavo saiu do banho, deitou na cama ao meu lado, passei a Celina pro colo dele, ela ainda estava ligada a placenta, peladinha coberta só com uma fraldinha de pano. Peguei o celular e tinha um monte de mensagens no grupo das amigas do condomínio perguntando se nasceu (certamente ouviram meus gritos), mandei uma foto nossa, liguei pra minha mãe e pra minha vó e pedi pra ela me trazer uma marmita (de macarrão com feijão). Gustavo comentou que a Celina soltou um pum, levantei o lençol pra olhar e ela tinha feito mais cocô. Chamei pelas meninas, a Dri limpou ela e devolveu pro nosso colo, 1h depois da ligação a Laura chega. Ficou parada na porta do elevador, olhando pra parede, chamaram pelo Gustavo pra ir pegar ela, ela veio no colo, não falou uma palavra. Eu estava com a Celina no colo e ela entrou no quarto com os olhos marejados, ainda sem palavras, só olhava… tentei filmar mas foi um fiasco.

Ela subiu na cama, deu um beijinho na cabeça da irmã e começou rir atoa. Falei que a Celina tinha trazido um presente, Gustavo pegou no armário, e ela não se aguentava de felicidade, era uma boneca da Draculaura, ficou toda encantada. Chamamos a Ana Paula e adivinhem só, Laura não quis cortar o cordão, então o papai cortou na frente dela, Ana colocou a balança no chão e pesou: 3.060kg, pedi pra Laura buscar uma roupinha pra colocar nela, a Camila ajudou a colocar, tiramos a foto da equipe e chamamos minha sogra pra conhecer a neta mais nova. Levantei e entrei no chuveiro pra tomar banho, tomei bronca da Camila porque não poderia levantar da cama sem avisar… rs. Entrei no chuveiro e  nem dava pra acreditar de tão maravilhoso que era tudo, tomei aquele banhão delicia e a com a ajuda da Camila me enxuguei e coloquei roupa. Ah, o grupo da família estava eufórico e todos queriam conhecer a Celina, vieram os tios, os primos, e os bisos da parte do Gustavo. Mais tarde meus avós, a Gabi, uma amiga querida que mora em Brasília mas estava em Campinas nesse final de semana (muita sorte) e quase no final do dia a minha mãe.

Levantei e tomei café da manhã, a Camila e Adriana trocaram o lençol da minha cama e deitei de novo num lençol limpinho e cheiroso. Vou ser redundante e dizer que foi tudo maravilhoso, vocês não tem ideia de como é bom parir em casa. As parteiras arrumaram as coisas, a casa estava em perfeito estado, parecia que nada tinha acontecido.

Quatro dias depois a Ana Paula voltou pra fazer as avaliações e medir: 49cm (igual a Laura) e foi só nesse dia que Celina tomou banho pela primeira vez e de chuveiro, com ajuda da doula amada.

E claro, não poderia terminar esse relato sem dizer: tenham seus filhos em casa (se for gestante de risco habitual, claro). É tão incrível que chega ser indescritível, só quem passa por essa experiência tem ideia da dimensão que é tudo isso. Não quer ter em casa? Tenha no hospital, mas contrate uma equipe que te respeite, e sim, dá pra negociar, fazer permuta, eu fiz e deu certo. Economize em tudo, menos no parto, só se nasce uma vez.  Enxoval? acredite que muita coisa que falam pra comprar você não vai usar, seu filho não precisa de coisas personalizadas, de carrinho de mil reais, de um quartinho montadinho onde ele não vai ficar. Seu filho precisa chegar nesse mundo com amor, por que isso, senhoras e senhores, não tem volta.. todo o resto a gente consegue correr atrás depois.

 

Meu agradecimento especial a essa equipe maravilhosa que agora faz parte da nossa história.
Adriana e Camila, vocês acreditaram em mim desde o primeiro encontro, gratidão por serem tão iluminadas.

Gi, aaah, Gi o que falar de você? Sempre digo que é a calmaria no caos, você é luz e sabe disso. Gratidão por estar com a gente em mais essa aventura e ser tão generosa.

Kelly, que coração enorme e que pessoa linda. Obrigada por aceitar fotografar nossa família e alegrar esse dia com seu bom humor.

Ana Paula, obrigada pela tranquilidade que transmite.

Marido, ai marido, sem palavras pra você. Minha admiração por você só aumenta, gratidão por escolher passar por tudo isso junto comigo por inteiro, você foi e é um pai maravilhoso.

Ah, e uma foto minha tomando café pra vocês verem como eu estava maravilhosa e um trechinho de outra música que estava na nossa playlist e tem tudo a ver com a ocasião.

“Não é sobre chegar no topo do mundo
E saber que venceu
É sobre escalar e sentir
Que o caminho te fortaleceu”

 

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